
As perícias nos arquivos apreendidos por ordem de Toffoli podem trazer à luz a extensão completa dos métodos empregados pela Lava Jato
O ministro Dias Toffoli enfrenta uma ofensiva para removê-lo da relatoria do caso Master e enfraquecer o Supremo Tribunal Federal. A campanha é liderada pelo senador lavajatista Alessandro Vieira e amplificada pela ala lavajatista da mídia.

Toffoli ordenou busca e apreensão nos arquivos da 13ª Vara Federal de Curitiba após a recusa continuada da Vara em cumprir determinações do Supremo.
Não se sabe o desfecho dessa ofensiva contra Toffoli. Mas poderá varrer para baixo do tapete, alguns dos principais crimes políticos ocorridos no país na última década.Play Video
A Gravação Editada que Mudou a História
Segundo o procurador Celso Três, um dos mais respeitados do Ministério Público Federal, a perícia nas gravações apreendidas revelará o que ele considera o maior golpe político recente: a divulgação de uma versão editada da conversa entre a presidente Dilma Rousseff e Lula.
O ministro Teori Zavascki já havia declarado o vazamento ilegal. Mas o detalhe decisivo, segundo Celso Três, foi a edição: cortaram o trecho final em que Lula afirmava que não assumiria o Ministério.
O resultado foi uma narrativa distorcida, o país incendiado e o impeachment viabilizado de maneira irreversível. “Aquilo mudou a história do Brasil”, afirma Celso Três.
A Escalada Autoritária
Após o vazamento, movimentos como MBL e Vem Pra Rua organizaram eventos de caráter antidemocrático, como o comício no estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, onde bonecos representando ministros do STF foram queimados em praça pública.
A reação institucional foi o silêncio absoluto. Polícia Federal e Ministério Público se omitiram. O Supremo Tribunal Federal, posteriormente, recebeu líderes desses movimentos.
O Banco de Dados Clandestino
Uma das revelações mais graves foi a existência de um banco de dados paralelo, com terabytes de informações sobre cidadãos sem processo judicial e sem autorização, muitos com acesso privilegiado a dados fiscais e bancários.
Quando a então vice-procuradora-geral Lindora Araújo tentou acessá-lo na gestão de Raquel Dodge, teve o acesso negado. Não era simples descumprimento administrativo, mas apropriação indevida de dados do Estado brasileiro.
O esquema ultrapassava o âmbito judicial: jornalistas foram grampeados, políticos monitorados, críticos constrangidos. Um aparato de vigilância política operando à margem da lei.
A Seletividade Reveladora
A decisão mais emblemática foi revelada pela Vaza Jato: “Não vamos investigar bancos para não causar risco sistêmico”.
Quebraram construtoras, destruíram a indústria naval, devastaram setores produtivos inteiros. Os bancos, porém, foram poupados. A Lava Jato escolheu quem destruir e quem proteger.
A Militância Institucional
Celso Três relembra uma reunião convocada por Deltan Dallagnol no Rio de Janeiro, em 2017, com toda a força-tarefa reunida e imprensa presente. Foi divulgado um manifesto visando interferir nas eleições de 2018:
“Se a luta contra a corrupção depende essencialmente do Congresso, é preciso que a sociedade continue atenta aos movimentos dos atuais parlamentares, manifestando-se contra qualquer tentativa de dificultar ou impedir as investigações criminais de pessoas poderosas. Por fim, é crucial que em 2018 cada eleitor escolha cuidadosamente, dentre os diversos setores de nossa sociedade, apenas deputados e senadores com passado limpo, comprometidos com os valores democráticos e republicanos e que apoiem efetivamente a agenda anticorrupção.”
Era militância institucional explícita, com procuradores orientando o voto dos cidadãos.
A Impunidade Institucional
Em qualquer democracia madura, haveria exoneração sumária, processo disciplinar e responsabilização criminal. Por que nada disso ocorreu?
Segundo Celso Três, a cúpula do MPF sabia de tudo. A Vaza Jato mostrou o corregedor orientando a defesa de Deltan Dallagnol, a Procuradoria-Geral da República omissa, o Conselho Nacional do Ministério Público blindando abusos.
Criou-se um ambiente de medo interno, corporativismo e subordinação política.
À época, o procurador-geral Rodrigo Janot era considerado fraco. Celso Três lembra que Dilma Rousseff perdeu a oportunidade histórica de nomear Ella Wiecko, a primeira mulher à frente da Procuradoria. Com ela, os abusos certamente não teriam ocorrido.
O Silêncio Atual
Hoje, nada se faz porque grande parte da cúpula atual do MPF ocupava cargos de chefia na época, assinou atos, blindou corregedores, validou condutas irregulares. Abrir a caixa preta equivaleria a uma explosão interna.
Quando a Vaza Jato revelou o corregedor orientando Deltan, a cúpula sabia e não agiu. Admitir isso agora seria confessar prevaricação histórica.
As perícias nos arquivos apreendidos por ordem de Toffoli podem finalmente trazer à luz a extensão completa dos métodos empregados pela Lava Jato — e explicar por que a responsabilização permanece tão distante.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)