
Apenas seis meses separam a tomada de assalto da Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro desse “ensaio ficcional trágico” que pode ser o resultado da aventura belicista de Trump
Jared Kushner foi preso numa cela em Minsk, capital de Belarus, depois que seu voo de regresso de Moscou para Berlim foi interceptado por determinação de Vladimir Putin. O genro de Donald Trump, empresário e lobista, tinha se reunido horas antes com o autocrata russo. Trataram da divisão do espólio do terço pilhado da Ucrânia depois do humilhante acordo de paz assinado pelos ucranianos por imposição do regime autocrático trumpista.
Ivanka Trump, mulher de Kushner, esperava-o numa suíte do Ritz-Carlton. Era o melhor hotel da capital alemã. De lá, retornariam a Washington depois que o casal, representando o governo norte-americano, se reunisse com lideranças da AfD, o partido de extrema-direita que controla o Parlamento alemão. O objetivo: minar a resistência dinamarquesa contra a ocupação em curso da Groenlândia por tropas navais dos EUA. Ivanka está desaparecida. Não entra em contato com o pai e nem com ninguém da Casa Branca há três dias. Suspeita-se que tenha sido sequestrada por agentes da FSB, o serviço-secreto russo.
Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, arauto de todas as declarações de guerra vocalizadas por Trump em sua alucinante escalada contra regimes democráticos ou adversários políticos da Casa Branca escolhidos randomicamente de acordo com os maus bofes do estafeta do Salão Oval, morreu na noite de anteontem. Foi vítima do atentado com carro-bomba lançado contra o comboio no qual saía da sede da Organização dos Estados americanos (OEA) na Constitution Avenue, em D.C.
O carro-bomba era uma unidade do Google teleguiada por uma milícia de sicários colombianos criada em território americano para reagir às agressões bélicas dos EUA contra a Colômbia. Dois deles já foram presos, mas a célula que integravam contava com 18 nacionalistas latino-americanos. Além de seis colombianos, são quatro mexicanos, quatro venezuelanos, dois cubanos, um brasileiro e um guianense.
Peter Hegseth, autointitulado “Secretário de Guerra” dos Estados Unidos (ele impôs o fim da Secretaria de Defesa e criou a Secretaria de Guerra), também morreu anteontem. Foi atingido por um tiro solitário e eficaz de fuzil de alta precisão, disparado por um sniper entrincheirado numa casamata improvisada no bosque de pinheiros localizado nas cercanias de uma das arestas do Pentágono. Hegseth, orador raivoso e gestor público atrabiliário, quis ser “O Senhor das Guerras” fermentadas na mente senil do já provecto Donald Trump. O atirador de elite que o atingiu era de origem asiática, ainda não foi identificado, suicidou-se na própria casamata e utilizou um rifle de longo alcance McMillan TAC-50 fabricado lá mesmo, nos EUA.
Os assassinatos de Rubio e de Hegseth, o sequestro de Kushner determinado por Putin e promovido por tropas da guarda palaciana do regime de Alexander Lukashenko e o desaparecimento de Ivanka Trump, deram-se na esteira dos atos de força bélica e invasões de territórios nacionais soberanos promovidos pelo regime autoritário norte-americano nos últimos meses. Já não se escuta mais a voz ou quaisquer manifestações dos organismos internacionais de promoção da paz e de proteção dos acordos multilaterais entre Nações. Todos eles estão falidos. As agressões mútuas e as respostas violentas criaram uma guerra de guerrilhas em escala global.
O estopim de toda essa desorganização internacional se deu há apenas seis meses, com a invasão da Venezuela por um esquadrão naval e da Força Aérea do EUA. Na ação, os comandados de Trump sequestraram o então presidente venezuelano, o contestado e arbitrário Nicolás Maduro, e anexaram o país sul-americano à órbita gravitacional de sua esfera de poder. As riquezas minerais venezuelanas, sobretudo o petróleo bruto, passaram a ser exploradas e comercializadas por empresas norte-americanas definidas pela Casa Branca.
A desordem é a Nova Ordem internacional. A China, até aqui, assiste ao desarranjo do mundo ocidental em estudada letargia. Comunicados de repúdio a violências e a agressões diplomáticas, além de invasões territoriais, são divulgados de forma pontual, cirúrgica e sempre pragmática: o regime de Pequim, que controla o maior e mais tecnológico exército do mundo, que possui a maior Força Aérea de drones do planeta e que domina integralmente o ciclo nuclear autorizando a projeção especulativa de que tenha o maior arsenal de ogivas nucleares de toda a Terra.
Diante desse cenário, sente-se autorizado a reanexar a ilha de Taiwan ao seu território. Taiwan foi fundado em 1949 por dissidentes do regime comunista implantado na China por Mao Tsé-Tung no processo de reintegração nacional do pós-Segunda Guerra Mundial.
O roteiro dessa antevisão apocalíptica de 2026 foi encontrada numa espécie de cápsula do tempo encontrada no fundo falso de uma gaveta na redação da revista The New Yorker. A gaveta integrava a estação de trabalho usada por John Hersey, autor de “Hiroshima”, considerada a maior e mais completa já escrita em todos os tempos. A cápsula do tempo, um cilindro com algumas folhas manuscritas, continha uma correspondência hipotética travada entre Philip Roth, autor, entre outros, do espetacular “Complô Contra a America”, e Joseph Conrad, autor do seminal “No Coração das Trevas”.
Os dois não se conheceram. Conrad morreu em 1924; Roth nasceu em 1933. Contudo, Conrad escreveu uma impressionante missiva a um autor americano que nasceria anos depois de sua morte. O texto foi confiado a John Hersey. A descrição desse autor indeterminado bate com a personalidade obsessiva, sarcástica e contraditória de Roth, a quem a Hersey mostrou a extensa carta de Conrad.
Roth respondeu-a secretamente e guardou a troca impossível de correspondências no tubo cilíndrico. A narrativa do fim dos tempos, segundo Philip Roth, seria a descrita aqui. Ele encerrou a resposta a Joseph Conrad advertindo que as cenas jamais vistas de desorganização da ordem mundial nesse 2026 seriam descritas no futuro, se futuro houver e persistir, como “o horror, o horror”.
LUIS COSTA LIMA ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( BRASIL)