
Corretora não é um ator periférico: está no centro da relação entre mercado financeiro e dinheiro previdenciário público
Por trás das aplicações milionárias dos regimes próprios de previdência (RPPS), uma corretora aparece de forma recorrente: a Planner. Documentos oficiais, alertas de órgãos de controle e investigações policiais revelam como a empresa se tornou peça-chave na engrenagem que movimenta recursos da aposentadoria de servidores públicos.
Do protagonismo à lista de risco
A Planner atua no mercado com duas frentes principais: Planner Corretora de Valores S.A., responsável por intermediação e distribuição de produtos, e Planner Trustee DTVM Ltda., voltada para administração de fundos. Essa estrutura permitiu à empresa ocupar espaço estratégico junto a institutos de previdência municipais e estaduais.
Nos últimos anos, a Planner aparece:
- Como administradora de fundos que receberam recursos de RPPS.
- Como corretora credenciada para compra de títulos públicos e privados.
- Em relatórios de órgãos de controle e operações policiais ligadas a fraudes em fundos de pensão.
Não é um ator periférico: está no centro da relação entre mercado financeiro e dinheiro previdenciário público.
Linha do tempo: da Encilhamento à Lava Jato
2017 – Operação Encilhamento
A Polícia Federal cita a Planner DTVM entre as instituições suspeitas em esquema de fraudes envolvendo fundos e RPPS municipais. O caso colocou a empresa no radar regulatório.
2018 em diante – Fundos vedados
O Ministério da Previdência passou a listar fundos administrados pela Planner como “vedados” para RPPS, incluindo o Planner Fundo de Investimento Multimercado e o Planner Ações Institucional RPPS.
2021 – Alerta do MP de Contas
Parecer do Ministério Público de Contas de São Paulo recomenda cautela na aplicação em fundos administrados pela Planner, citando histórico de acusações em fraudes.
2023 – RioPrevidência e Lava Jato
Relatório da CPI do RioPrevidência menciona a Planner Trustee como instituição ligada a operações investigadas na Lava Jato, envolvendo securitizações e fundos que impactaram a previdência do Estado do Rio.
Mapa da presença nos RPPS
Documentos de institutos municipais mostram a Planner como parceira ativa em diversas cidades:
Itapevi (SP) – Autorização de aplicação e resgate com Planner Trustee como administradora.
Itu (SP) – Carteira de investimentos com posição superior a R$ 2,9 milhões via Planner Corretora.
Suzano (SP) – Demonstrativos listam a Planner entre instituições que operam recursos do RPPS.
Londrina (PR) – Relatório de governança cita ofício à Planner Trustee em reorganização de ativos.
Juazeiro do Norte (CE) – Apresentação institucional explica papel da Planner na distribuição de cotas.
Ipojuca (PE) – Termo de credenciamento inclui a Planner como consultora para investimentos.
Mesmo após alertas, a empresa segue sendo credenciada por institutos como Itapecerica da Serra (SP) e Guanhães (MG), além de receber visitas técnicas para apresentar ferramentas de operação com títulos públicos.
Por que isso importa?
A atuação da Planner não é isolada. Ela se conecta a um padrão: intermediários especializados em RPPS oferecendo produtos de risco elevado. No caso do RioPrevidência, por exemplo, a Planner aparece como intermediária na compra de Letras Financeiras do Banco Master — outro nome controverso no mercado.
Esse ecossistema repete a lógica: regimes próprios buscando taxas altas, intermediários agressivos e ativos que depois entram em listas de vedados ou em investigações.
As ligações da Planner com o Master
- Núcleo Planner clássico (corretora, SCD, etc.)
- Organizado em torno de Planner Holding Financeira S.A.,
- Controlada por B100 (grupo Carlos Arnaldo) + Jaguar FIP (Quadrado).
- Núcleo Quadrado / Master
- Quadrado entra primeiro como acionista direto da Planner Holding (2017),
- Reorganiza via Jaguar FIP (2020 em diante),
- Consolida controle da Trustee Holding / Planner II,
- Usa os mesmos fundos (Jaguar, outros FIPs) para operações com Banco Master, MAM Asset, Trustee, Planner.
- Interconexão Master–Planner–Trustee–MAM
- Documentos da Esh mostram que Planner, Trustee, MAM Asset e Banco Master têm controlador indireto comum (Quadrado), endereço comum e administradores comuns, configurando um conglomerado de fato.
COMUNICADO DA PLANNER
Em respeito aos leitores do GGN, a Planner Investimentos esclarece que, na qualidade de administradora fiduciária, nunca foi responsável por qualquer decisão de compra dos referidos títulos de renda fixa do banco Master, cabendo essa decisão aos gestores das próprias instituições. A Planner informa também que não tem relação societária com a Trustee.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)