
Em entrevista, professor argumenta que a operação no RJ foi um aceno à ultradireita e uma “tentativa de salvação” de Claudio Castro no TSE
O resultado final do massacre ocorrido nas comunidades da Penha e do Alemão terá impacto decisivo no futuro do Rio de Janeiro, pelo menos nos próximos anos. E isso inclui o futuro político.

“Mas não se trata de segurança pública”, explica o cientista político Luiz Eduardo Soares. “Ninguém que é responsável e consequente nessa área pode imaginar que uma operação bélica irresponsável como essa deixe qualquer lastro positivo”.
Em entrevista exclusiva ao jornalista Luis Nassif na TV GGN 20 horas, Soares afirma que a operação conduzida pelo governo Claudio Castro foi política e, nesse sentido, teve resultado em um primeiro momento por conseguir mudar a agenda pública.
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“O Lula tinha saído das cordas, o governo federal estava assumindo um importante protagonismo político, defendendo a soberania nacional aviltada pelo bolsonarismo, pela ultradireita, tinha voltado de uma reunião importante e positiva, né, com Trump, e as indicações sobre 26 eram muito favoráveis, tanto que a ultradireita se dividia(…)”, lembra o antropólogo.
Com a operação – ou, nas palavras do professor “intervenção desastrada e desastrosa” – o foco da agenda mudou para um certo afã ‘bukelista’ (em referência ao ditador Nayib Bukele, de El Salvador), neofascista e o quadro voltou a ficar aberto para disputas eleitorais.
Aceno da ultradireita à intervenção imperialista
Soares lembra que, de certa forma, a ação do governador Claudio Castro ofereceu um passaporte e uma senha para que ocorram intervenções imperialistas no Brasil em nome da ‘luta contra o narcoterror’.
“Em nome da luta contra o narcoterror, na véspera, Flávio Bolsonaro tinha pedido a Trump que bombardeasse embarcações na Baia de Guanabara que tivessem ligação com o tráfego, como ele tá fazendo na Venezuela”, relembra o professor.
Então, Luiz Eduardo Soares lembra que a ação do governo Castro introduziu o tema do narcoterror e todas as suas implicações para a soberania.
“Nós temos uma mudança de agenda política e nós temos a salvação, a tentativa de salvação do Claudio Castro no julgamento do Tribunal Superior Eleitoral, que ainda tá em curso, e isso se fez uma semana antes do julgamento (…)”.
“Então, é operação muito mais política e a reação popular medida pelas pesquisas que têm sido positiva pro governo do estado. Eu acho que talvez ainda seja objeto de mudança profunda, porque a população de fato ainda não conhece, não sabe o que aconteceu.”
E nem mesmo os interesses políticos das autoridades podem camuflar as imagens das famílias dos desaparecidos naquele primeiro momento.
Parentes e pessoas ligadas ao trabalho social nas comunidades foram à serra, onde encontraram “corpos desmembrados, com decapitação, com facadas inúmeras, traços nítidos de execução, pessoa amarrada com tiro na testa”, com todos os indícios de que o discurso predominante na mídia corporativa pode ser mudado caso a perícia ocorra de forma independente.
Veja mais da conversa entre Luiz Eduardo Soares e Luis Nassif no vídeo abaixo.

Tatiane Correia
Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.