
O Prêmio Nobel de Literatura, a mais importante honraria das letras em todo o mundo, foi instituído em 1901 pela Academia Sueca. O vencedor foi poeta francês René Armand François Prudhomme (1839 – 1907), parisiense, que assinava seus versos como Sully Prudhomme. O maior romancista português do século XIX, o poveiro José Maria de Eça de Queiroz, o célebre Eça de Queiroz, nascido há 180 anos, em 1845, morreu, justamente, em 1900, aos 55 anos, ou seja, 12 meses antes do surgimento da premiação – que contempla exclusivamente escritores vivos.
Eça de Queiroz teria sido, seguramente, o primeiro autor no idioma de Luís de Camões (1524 – 1580) candidatíssimo ao Nobel – embora seu contemporâneo brasileiro, o refinado carioca, Machado de Assis (1839 – 1908), jamais teve a obra cotada para o galardão. Só um literato de língua portuguesa recebeu a prestigiosa láurea conferida, anualmente, em Estocolmo, o ribatejano José Saramago (1922 – 2010). Militante ilustre do Partido Comunista Português (PCP), confessava-se leitor voraz do monarquista Eça de Queiroz, que, à época, era progressista, à luz da verdade, apenas nos costumes, vestindo-se, elegantemente, em estilo londrino, porém, esnobe, como um parisiense do ancien régime. Nunca escondeu em seus textos um profundo desdém pelos compatriotas. Intrinsecamente, para ele, Lisboa era provinciana, ao contrário de Paris, e, oposta a Londres, republicana, maçônica e, contraditoriamente, carregada de ‘rancor’ anticlerical.
Os herdeiros de Eça de Queiroz, a partir da Proclamação da República, em 1910, acabariam sofrendo represálias por causa do desprezo do autor pela capital do Império. Uma das medidas drásticas adotadas pelos republicanos foi cortar a pensão de sua viúva, Dona Emília, e filhos – condenando-os à pobreza. Eça de Queiroz, com efeito, viveu e frequentou os melhores salões de Lisboa, Londres e Paris, no entanto, praticamente nada deixou como herança.
O ambiente na casa da família era, nitidamente, monarquista, bem como Católico e, por vezes, bastante reacionário – ainda que o renomado escritor mantivesse fortes vínculos com destacadas figuras do universo vanguardista. Como, por exemplo, o poeta açoriano Antero de Quental (1842 – 1891), um dos fundadores, em 1875, do Partido Socialista Português, e o notável historiador lisboeta Oliveira Martins (1845 – 1894). Depois do golpe republicano, a viúva de Eça de Queiroz, com a irmã Benedita de Castro, e sua filha Maria se mudariam para Londres e se juntariam à comunidade de portugueses fiéis à Monarquia, que acompanhou o exílio de Dom Manuel II (1889 – 1932), cognominado “O Patriota”, último soberano de Portugal.
Era o segundo filho do Rei Dom Carlos I (1863 – 1908), “O Diplomata”, assassinado por terroristas anarquistas – episódio que passou à História como o “Regicídio do Terreiro do Paço”. Também era ativista monarquista um dos filhos do casal, António de Eça de Queiroz (1891 – 1968), nascido em Paris, futuro aliado do regime de António de Oliveira Salazar (1889 – 1970), por acreditar, em vão, que o “Estado Novo” do Professor de Coimbra restituiria a Coroa de Lisboa à Sereníssima Casa de Bragança.
António, o filho, faleceria dois anos antes do António – a quem serviu. Permaneceu monarquista até o fim da vida e fazia questão de lembrar que seu próprio pai era defensor do trono português. E, de fato, o escritor chegou a vaticinar, quando o Brasil se tornou uma República, que o País terminaria dividido em 25 Nicaráguas. Para a nossa sorte, nessa profecia, Eça de Queiroz errou feio.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador