A GUERRA SUJA

CHARGE DO LATUFF

A história da violência social nas favelas tem mostrado que estas operações não conduzem à redução do crime

A Filosofia Política de Thomas Hobbes é, toda ela, construída com base num único ponto de apoio — o “medo da morte violenta”, que o filósofo considerou como sendo o mais instintivo, o mais forte e o mais dominante sentimento humano.

O Estado, segundo ele, nasce deste pavor: receando pela sua vida e pelos seus bens, os indivíduos abdicam de parte da sua liberdade individual, que existia no estado de natureza, e transferem-na para uma poderosa entidade — o Estado civil ou Leviatã — que, com todo o seu poder, garantirá a segurança de todos.

Quatro séculos depois, grande parte do debate democrático ainda anda a volta destas duas palavrinhas — quem vem primeiro, a liberdade ou a segurança? A qual dos valores deve o Estado dar prioridade? Será a segurança a primeira das liberdades, ou nunca haverá segurança sem liberdade?

Para mim, a intervenção policial no Rio de Janeiro foi uma barbaridade; para outros, este tipo de violência estatal é a única forma de responder ao crime organizado. Deixem-me argumentar: não acredito num Estado que aja fora da lei. Esse Estado nunca oferecerá segurança, mas medo — e será sempre uma questão de tempo até essa violência arbitrária um dia nos bater nos à porta. É assim que vejo a tragédia do Rio de Janeiro: não é apenas um falhanço do Estado, mas uma perigosa deslegitimação moral do Estado.

PGR cobra explicações do governo do Rio sobre operação que deixou 119 mortos
Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. (Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil)

Há quem pense que as ações de exceção acabarão por ser compreendidas e aceites com os resultados positivos que produzirem — uma espécie de legitimidade em exercício, dizem. Mas não é assim. Infelizmente, não é assim: a história da violência social nas favelas tem mostrado que estas operações não conduzem à redução do crime, mas ao escalar da violência. Depois destas mortes, mais mortes virão. Estas carnificinas são apenas a naturalização da violência.

O espetáculo dos corpos alinhados impressiona muito, mas também impressiona o discurso político sobre a operação. A lamentável desumanidade do discurso do governador, desconsiderando as vítimas que não fossem polícias, diz muito do ponto a que chegamos neste debate. O que parece é que o estado do Rio de Janeiro desistiu do direito soberano e passou a usar o direito militar.

O Estado não agiu contra cidadãos suspeitos, mas contra inimigos. O uso da força não teve a ver com a culpa mas com a pertença ao outro lado. A força letal não foi usada como última ratio, mas como primeira. O Estado não esteve a combater o crime, esteve em guerra — e com os seus próprios cidadãos. Acontece que a guerra não é justiça, nem é a política por outros meios, a guerra será sempre o fracasso da política. E não há guerras santas, só guerras sujas. Esta foi especialmente suja.

JOSÉ SOCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( PORTUGAL / BRASIL)

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