
Ao confundir crítica a Israel com antissemitismo, o sionismo hegemônico está alimentando o próprio monstro que diz combater.
O dilema judaico é de dar nó na cabeça das pessoas mais racionais.
Há o uso exaustivo do antissemitismo como arma de lawfare e como argumento de discussão. Não adianta a pessoa mostrar contrapontos, a posição de judeus democratas, de pensadores históricos do judaísmo. Não adianta, além disso, argumentar que as críticas são contra Netanyahu, não contra os judeus. E sequer adianta invocar grandes pensadores judeus, que ajudaram a formatar o pensamento humanista. A cabeça do sistema judaico no Brasil, definitivamente, tem o perfil de Netanyahu. Judeus não alinhados com essa ultradireita não são mais tratados como judeus.
Para entender o que se passa na cabeça da comunidade judaica, há a necessidade de um salto no tempo, em 1896 com o livro O Estado Judeu, de Theodor Herl, jornalista austro-húngaro, propondo a criação de um estado próprio, na Palestina, como resposta ao antissemitismo europeu.Play Video
Até então, a tradição judaica dominante, do judaísmo religioso, via o exílio como uma condição espiritual, que só o Messias poderia encerrar.
De 1897 a 1948 (ano da fundação de Israel), havia três grandes grupos judaicos, em conflito com o sionismo:
- Ortodoxos (anti-sionistas religiosos), com o bordão “a terra de Israel é dom divino, não conquista política”.
- Os judeus assimilacionistas europeus. Intelectuais como Sigmund Freud, Franz Rosenzweig e muitos socialistas judeus viam o sionismo como retrógrado e nacionalista, um desvio do universalismo iluminista judaico. Temiam que o projeto sionista isolasse os judeus novamente, em vez de integrá-los ao mundo moderno.
- Os socialistas e bundistas. O Bund Judaico (União Geral dos Trabalhadores Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia), fundado em 1897, defendia que os judeus deviam lutar pelos direitos sociais e culturais onde viviam, não emigrar. Para eles, o sionismo era uma fuga da luta de classes.
Após a criação do estado de Israel, em 1948, o conflito agravou-se. Tornou-se uma disputa moral e teológica.
Os ortodoxos passaram a considerar o estado de Israel como uma violação ao Torá. Os judeus da diáspora (nos EUA e Europa) temiam que o sionismo criasse a dupla lealdade – ser judeus e cidadão de outro país. E os sionistas seculares passaram a tratar os dois outros grupos como inimigos de Israel.
A parceria com a ultradireita mundial
Criado o estado de Israel, instalou-se uma nova disputa.
O sionismo original — de Herzl, Weizmann e Ben-Gurion — era moderno, europeu e universalista, não messiânico.
A fundação do Estado de Israel foi conduzida por David Ben-Gurion e o partido Mapai (trabalhista, socialista e laico). O país foi concebido como um projeto coletivista e republicano, baseado nos kibutzim e na imigração dos sobreviventes do Holocausto. As forças religiosas tinham pouco poder político, confinadas a ministérios secundários (assuntos religiosos, educação).
O ponto de inflexão veio com a Guerra do Yom Kippur (1973). O trauma da guerra e a crise econômica abalaram o Partido Trabalhista. Menachem Begin, líder do Likud (direita nacionalista e revisionista), vence as eleições de 1977 — o chamado Mahapach (“a virada”). Começa ali o ciclo da direita sionista, com ênfase em segurança, identidade religiosa e colonização dos territórios ocupados.
A partir de 1977, a direita passa a monopolizar a narrativa nacionalista e bíblica:
“Deus prometeu esta terra a Israel” substitui o antigo lema socialista: “Construímos esta terra com nossas mãos”.
O Likud se alia aos partidos ortodoxos e ultrarreligiosos, especialmente o Shas e o Judaísmo Unido da Torá, trocando apoio político por verbas e autonomia nas escolas religiosas.
O movimento dos colonos (settlers) na Cisjordânia torna-se o braço messiânico do sionismo de direita — crente de que o retorno a “Judeia e Samaria” cumpre profecias bíblicas.
Surge o conceito de “sionismo religioso” (mistura de nacionalismo e teologia), com figuras como Rabino Zvi Yehuda Kook.
A esquerda sionista, ligada aos kibutzim e ao processo de paz, começa a perder espaço, especialmente após o assassinato de Yitzhak Rabin (1995).
Paralelamente, o sionismo passa a ser apropriado pelos evangélicos, principalmente nos EUA e na América Latina. Nos anos Reagan (1980s), pastores como Jerry Falwell, Pat Robertson e John Hagee reinterpretam o apoio a Israel como mandato bíblico. Nasce a doutrina do “cristianismo sionista” — crença de que a restauração de Israel é sinal do fim dos tempos e da segunda vinda de Cristo.
Israel, antes visto como questão política, passa a ser ícone religioso para milhões de fiéis.
A partir dos anos 1990, Benjamin Netanyahu percebe o potencial político do apoio evangélico.
Em 2006, ele se aproxima formalmente da Christians United for Israel (CUFI), organização fundada por John Hagee, que hoje mobiliza mais de 10 milhões de evangélicos pró-Israel nos EUA. Essa aliança se traduz em apoio incondicional a políticas duras — anexações, colonatos, oposição ao Estado palestino.
A teologia sionista-evangélica se espalha para a América Latina nos anos 2000.
No Brasil, igrejas neopentecostais como a Igreja Universal do Reino de Deus (Edir Macedo) e a Assembleia de Deus incorporam Israel como símbolo sagrado e político.
Políticos evangélicos e conservadores passam a usar a bandeira de Israel como emblema de “aliança divina” e “combate ao comunismo”.
O auge dessa apropriação ocorre durante o governo Jair Bolsonaro (2019–2022), que nomeia pastores como “embaixadores cristãos em Jerusalém” e transfere simbolicamente apoio à direita israelense. Na Argentina, a imagem de Israel foi apossada por Javier Milei.
A divisão radical
Por aí, entende-se essa divisão radical.
Meses atrás, em visita ao Brasil, o sociólogo argentino Santiago Slabodsky, professor de Estudos Judaicos na Universidade Hofstra, em Nova York, explicou ao Globo, essa paranoia sionista. Indagado sobre as razões da vitória do sionismo, entre os judeus:
“Depois da Segunda Guerra, a comunidade judaica americana, próxima ao establishment, propôs um “nunca mais” para os judeus, defendendo que a única forma de impedir um novo Holocausto era por meio da obtenção de poder político. Para os poderes da época, interessava enfatizar o “nunca mais” para os judeus e estabelecer uma política ocidental no Oriente Médio, da qual Israel é o representante. É da natureza do Ocidente incorporar suas antigas vítimas para continuar seus genocídios”
O sionismo definitivamente tornou-se a cara hegemônica do povo judeu. A cultura humanista do judaísmo foi se convertendo, ano após ano, em um Gregor Samsa, o personagem de “A Metamorfose”, de Franz Kafka. Ou, talvez, um Dorian Gray, belo por fora, monstruoso por dentro.
Conheço famílias judias que passaram a ser discriminadas na colônia por se indignarem com o genocídio de Gaza. Dia desses, o professor Michel Germann denunciou lideranças judaicas por transformarem os judeus, críticos do genocídio, em inimigos da raça. Um rabino, em entrevista ao GGN, disse que está sendo criticado até por sua mãe, por ser contra o genocídio.
Por isso, não adianta mencionar grandes judeus, pensadores, cientistas, democratas, como prova de que você não é antissemita. Para a comunidade judaica hegemônica, representada pela Conib e pelas federações estaduais, só pode ser chamado de judeu quem endossa o sionismo e passa pano para Netanyahu. Qualquer menção crítica ao genocídio de Gaza o autor recebe o carimbo na testa: antissemita.
Os judeus que honram o judaísmo
Aqui estão alguns nomes contemporâneos e suas contribuições que podem iluminar esse dilema:
- Judith Butler – filósofa judia americana, crítica do sionismo e da política israelense. Ela defende que o judaísmo deve ser uma ética da alteridade, não um projeto de dominação. Em Parting Ways: Jewishness and the Critique of Zionism, ela propõe um judaísmo pós-nacionalista, baseado em justiça e coabitação.
- Santiago Slabodsky – como você citou, ele propõe um “judaísmo decolonial”, que rompe com a aliança entre sionismo e colonialismo ocidental. Para ele, o sionismo é uma forma de “branquitude política” que tenta apagar a diversidade judaica global.
- Shaul Magid – professor de estudos judaicos nos EUA, autor de The Necessity of Exile. Ele argumenta que o exílio é uma condição espiritual e ética do judaísmo, e que o sionismo rompeu com essa tradição ao transformar o judaísmo em nacionalismo.
- Ilan Pappé – historiador israelense, autor de A limpeza étnica da Palestina. Ele denuncia o projeto sionista como colonial e defende uma solução binacional baseada em justiça histórica.
- Avraham Burg – ex-presidente do Knesset e ex-presidente da Agência Judaica. Hoje, crítico feroz do sionismo, afirma que Israel se tornou um “Estado tribal, étnico e messiânico” que traiu os valores judaicos.
- Jewish Voice for Peace (EUA) – organização judaica antissionista que denuncia o uso do antissemitismo como arma para calar críticas legítimas a Israel.
- Neturei Karta – grupo ortodoxo antissionista que rejeita o Estado de Israel por razões teológicas.
- Breaking the Silence – ex-soldados israelenses que denunciam abusos cometidos nos territórios ocupados.
- IfNotNow – movimento jovem judeu nos EUA que se opõe à ocupação e ao apoio incondicional a Israel.
A ultradireita radical
Em todas as parte do mundo, Israel tornou-se símbolo da ultradireita mais selvagem, da religiosidade mais obtusa, da violência mais obscena. O antissemitismo tornou-se a bazuca do macarthismo, utilizado para perseguir as universidades. Culminando, agora, com um procurador denunciando por antissemitismo um jornalista judeu, Breno Altmann, contrário aos massacres de Gaza.
A verdade final é que o sionismo liquidou definitivamente com o judaísmo. Tornou-se a marca principal do judaísmo, a cara do judeu no mundo. Não mais Albert Einstein, Hannah Arendt, Sigmund Freud. A cara do judaísmo, agora, é Benjamin Netanyahu. No Brasil, não mais Isaac Kerstenetzky, José Mindlin, os Nussenzveig, mas os Lottenberg, os Lajst.
Em nome do sionismo, calaram todas as críticas ao mais sanguinário homem público da atualidade. Passaram a tratá-lo não como uma excrescência, criada pelos tempos inquisitoriais de agora, mas como um dos seus, o aliado que precisa ser defendido contra todas as críticas.
Ao confundir crítica a Israel com antissemitismo, o sionismo hegemônico está alimentando o próprio monstro que diz combater. Está dando verniz de legitimidade a teorias conspiratórias e empurrando críticos — inclusive judeus — para a marginalização.
Essa é uma tragédia dupla: para os palestinos, que sofrem a violência direta; e para os judeus, cuja herança ética e intelectual está sendo sequestrada por um projeto de poder.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)