
CHARGE DE QUINO ( ARGENTINA)
O jornalismo é útil nesta era de Carajo, Neura e dos comunicadores pró-governo que não fazem mais mau uso dos recursos da mídia estatal, mas pagam por eles diretamente na mídia tradicional?
O jornalismo é útil quando o fim da rixa parece ser decidido pelo convite de Pedro Rosemblat para debater com Fat Dan?
O jornalismo é útil quando, em tempos de turbulência financeira, em vez das coletivas de imprensa dadas por Ben Bernanke, o líder econômico do país durante a crise de 2008 — que mais tarde ganhou um Prêmio Nobel por essas declarações — nosso ministro e sua equipe preferem enviar mensagens aos mercados transmitindo The Three Anchors?Autoritários não gostam disso.A prática do jornalismo profissional e crítico é um pilar fundamental da democracia. Por isso, incomoda aqueles que acreditam possuir a verdade.Hoje mais do que nunca
Escrever ajuda?
Ajuda pensar?
Vale a pena perguntar?
O jornalismo é útil?
O jornalismo é útil quando o público prefere shows e entretenimento disfarçados de jornalismo?
Vale a pena publicar como continuamos fazendo no PERFIL e em alguns outros colegas?
Sim.
Serve.
Por pensarmos dessa forma, continuamos a fazê-lo não apenas na web, mas também na versão impressa, a melhor plataforma para leitura, como demonstram os livros que não se impressionaram com os métodos de leitura digital, embora sejam obviamente mais caros.
E estas linhas precedentes são relevantes porque a edição impressa de hoje, que seus leitores têm o privilégio de ter em mãos, é enriquecida pelo fato de ser uma edição de aniversário, marcando os 20 anos do relançamento do PERFIL em 2005, uma história que começou em 1998 com o primeiro lançamento deste jornal, mas que remonta a várias décadas, herdeira da revista Perfil que surgiu brevemente no final da ditadura militar quando aquele governo havia fechado a antecessora da revista Noticias, a revista La Semana, cuja primeira edição completará 50 anos em 2026, quando esperamos poder comemorar o meio século da Editorial Perfil.
Uma história marcada por dificuldades, além de fechamentos, prisões, bombas e um assassinato, somadas às nossas próprias vicissitudes, quando a violência já não podia mais ser perseguições físicas, econômicas e judiciais: entre 1998 e 2005, quando foi relançada
Na PERFIL, passamos sete anos pagando dívidas, mantendo a equipe editorial e a gráfica para cumprir nossa missão de retornar e continuar aqui hoje.
Pelo contrário, a vantagem de ler esta coluna online permitirá que você assista a um vídeo que recomendamos, gravado por um drone que sobrevoa nossa gráfica de jornais, a única que resta, junto com a do Clarín. Todos os jornais de Buenos Aires são impressos em uma dessas duas empresas sobreviventes. Até o La Nación fechou sua gráfica, e ainda hoje ressoam as palavras do ex-presidente Bartolomé Mitre quando decidiu lançar o La Nación e escreveu em uma carta a Juan Carlos Gómez em 1869: “Vou me tornar impressor e pegar o tipógrafo de Franklin” em vez de sua espada, pendurando-a porque seu país não precisava dela naquele momento.
Benjamin Franklin, considerado o primeiro americano, também era um impressor da Filadélfia, infraestrutura a partir da qual ele criou o primeiro jornal independente, sem autorização britânica, anterior e promotor da independência.
O jornalismo ainda serve como agente, e não apenas como repórter, da vida política, cultural e econômica do país?
Saiu de moda, como alguns no governo libertário acreditam, e tudo se resolve na estonteante brevidade das mídias sociais?
Importa o que a palavra encadeada em ideias diz, seja escrita ou falada, ou no caso desta última apenas a ênfase, a natureza altissonante e até mesmo os gritos e insultos?
O simples fato de Javier Milei ter sido eleito presidente demonstra a obsolescência de nossa pregação e a insignificância de nossa influência? Ou o fato de ele ter podido afirmar ontem, sem corar, que o áudio atribuído ao ex-diretor da Agência de Deficiência foi criado com inteligência artificial, ou seja, é falso, tendo, ao mesmo tempo, demitido o funcionário após o áudio, demonstra que pensar não é mais necessário ou útil para ser presidente ou cidadão?
Sim.
Serve.
“O jornalismo é uma profissão que tende a desaparecer”, disse o ministro da Economia, Luis “Toto” Caputo, que, além das imprecisões nas previsões que são sua especialidade, como a cotação do dólar, reflete a visão do governo e dos libertários, cristalizada na frase que Milei repetia até a exaustão: “Os jornalistas não são odiados o suficiente”.
Se é inútil, se o jornalismo tende a desaparecer e sua influência é irrelevante, por que aqueles que pensam assim desperdiçariam energia odiando-o ainda mais, quando a indiferença seria suficiente?
Em muitas áreas, os libertários confundem seu desejo com a realidade. Não são originais em suas esperanças para o futuro do jornalismo, nos anos em que aspiram a emular os de Carlos Menem. Um Mundo Sem Jornalistas era o título de um livro de Horacio Verbitsky. Nesta terceira década do século XXI, foi Claudio Escribano quem respondeu à previsão de seu fim em um longo texto intitulado “Vejamos, Ministro Caputo”. Não pode haver oposições jornalísticas mais extremas do que as de Escribano e Verbitsky, que eu propositalmente quis tecer nestas linhas para demonstrar que existe um fio condutor invariável que nos une.
Porta-vozes do governo, vestidos como jornalistas, serão eliminados dos principais veículos de comunicação. Canais de streaming criados como máquinas de propaganda governamental serão eliminados. Fazendas de trolls financiadas por um ou outro governo serão eliminadas. O jornalismo continuará.
Um texto de 1949 de Levi Strauss, O Feiticeiro e Sua Magia, refletiu antropologicamente sobre a duração das profissões, concluindo que sua permanência está diretamente relacionada à utilidade social da função que desempenham.
E diante de previsões desanimadoras, vale lembrar o ditado popular: “Os mortos que matam têm saúde”.
A saúde do jornalismo é servir.
JORGE FONTEVECCHIA ” JORNAL PERFIL” ( ARGENTINA)