
No caso brasileiro, o sucesso do BC se deve à Selic, elevadíssima, e também por passar a convicção ao mercado de que manterá ritmo.
O inacreditável editorialista da Folha produziu mais um editorial contra a “gastança” como responsável pelo aumento dos juros. Sempre que falta ideias para o editorial – uma ou duas vezes por semana – ele saca a fábula da gastança e repete os mesmos argumentos.
Antes de enlouquecer, Olavo de Carvalho produziu um artigo saborosíssimo, intitulado “Ciência e Demência”. Versava sobre a fidelidade do intelectual à teoria que o consagrou. Ele deve tudo àquela teoria, dizia Olavo, seu prestígio, sua reputação. Aí ele olha para a realidade, e ela contradiz a sua teoria. Como ele é um intelectual, então ele cria uma teoria para explicar que a realidade está errada.
É o que explica a facilidade com que o tal do mercado consolidou a crença de que política monetária, taxa básica de juros, tudo gira em torno da inflação e esta é alimentada pelo déficit público. Ou então, pelo pleno emprego. Corre então para aumentar a taxa de juros básica, afirmando que é necessário para reduzir a atividade econômica e impedir o repasse para os preços.Play Video
Há décadas, já era nítido que a política monetária tem baixíssimo efeito sobre a demanda agregada. Um ponto a mais na Selic tem impacto de centavos no crediário. Tudo gira em torno do câmbio.
Agora, o BIS, o Banco Central dos bancos centrais, publica o trabalho “Finding equilibrium: on the relation between exchange rates and monetary policy“, de Sebastian Edwards, com reflexões sobre o óbvio.
O ponto central do trabalho é a análise do chamado spillovers, ou transbordamentos, os efeitos indiretos da política monetária de um grande país sobre países menores, mesmo quando supostamente estes têm câmbio flexível e teoricamente poderiam conduzir sua política de forma independente.
Aqui, um esquema para entender as relações de causa e efeito.

A dinâmica da política monetária fica assim:
- Fed/BCE sobem juros
➝ atraem capitais de volta para EUA/Europa.
- Fluxo de capitais sai de emergentes
➝ moedas locais se desvalorizam.
- Depreciação cambial
➝ encarece importados, pressiona preços internos.
- Inflação aumenta
➝ risco de instabilidade e perda de credibilidade monetária.
- Bancos Centrais locais reagem
➝ sobem juros para conter inflação e defender moeda.
- Resultado final
➝ Países pequenos “importam” a política monetária das grandes economias, mesmo com câmbio flexível.
O fluxo de capitais não é apenas de países centrais para países menores. É entre países menores também. Se o carry trade do Brasil é inferior ao do México, o dinheiro sai daqui para lá e vice-versa.
Portanto, toda essa conversa de que a inflação é resultado de desequilíbrios fiscais ou excesso de demanda é a chamada embromation. É óbvio que desequilíbrios fiscais ou excesso de demanda afetam os preços. Mas não nos níveis atuais de déficit e de demanda.
As conclusões do trabalho
Em grandes economias, a política monetária atua via curva de juros. Em países pequenos e muito abertos, esse canal é enfraquecido; o principal passa a ser o câmbio.
Assim, todos os métodos usuais para avaliar equilíbrio cambial são furados.
O autor revisa quatro abordagens, todas insatisfatórias:
- Paridade do poder de compra (PPP) – simples, mas ignora produtividade e choques estruturais.
- Sustentabilidade externa – foca no balanço em conta corrente e posição de investimento internacional.
- Modelos de regressão – relacionam câmbio a “fundamentais”, mas são instáveis.
- Modelos DSGE/macroeconômicos – mais sofisticados, mas ainda pouco práticos.
Ele menciona o caso do México, no período 2015-2017. Poderia se basear no caso brasileiro de dezembro de 2024 a agora.
- forte depreciação do real;
- aumento da inflação;
- elevação da Selic e promessa de manter a taxa elevada;
- apreciação do real e queda da inflação.
E a conclusão final: a profissão precisa de modelos melhores para estimar o câmbio de equilíbrio, pois os métodos atuais são grosseiros e dão pouca orientação prática a policymakers.
O carry trade
A ferramenta que provoca esses fluxos cambiais é o carry trade – a operação de tomar dinheiro barato em um país de moeda forte e aplicar em um país de moeda fraca.
A rentabilidade do carry trade depende dos seguintes fatores:
- Diferencial de juros entre países. O resultado é o carry bruto
Taxas de referência (USD vs países emergentes)
2. Desse carry bruto tem que se descontar a expectativa de inflação local e o hedge cambial – isto é, a operação para prevenir eventuais desvalorizações da moeda local, o chamado forward, um contrato que fixa o preço futuro.
| País | Spot (USD/local) | Juros Local (a.a.) | Juros EUA (a.a.) | Prazo (meses) | Forward |
| Brasil | 5,33 | 15,0% | 4,0% | 12 | 5,89 |
| México | 18,2 | 7,8% | 4,0% | 12 | 18,86 |
| África do Sul | 17,9 | 7,0% | 4,0% | 12 | 18,42 |
| Índia | 83,5 | 6,3% | 4,0% | 12 | 85,31 |
No caso brasileiro, o sucesso do Banco Central se deve à Selic, elevadíssima, e também por passar a convicção ao mercado de que manterá esse ritmo.
Mas essa dependência monetária é fatal para qualquer projeto de desenvolvimento.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)