
O caso Link-BR2 é um alerta para o Brasil. Decisões políticas, econômicas e jurídicas podem impactar profundamente a segurança nacional.
Por que a venda de uma tecnologia estratégica mudou o rumo da defesa nacional
Desde a Lava Jato, o tema soberania foi jogado no bueiro da história do Brasil. Tentativa de venda da Embraer, fim de projetos estratégicos, destruição da indústria brasileira de defesa, tudo passou ao largo da história e da opinião pública.
Agora, gradativamente vão aparecendo os vestígios da mais ostensiva operação antinacional da história.Play Video
Um dos casos mais emblemáticos foi a destruição da Mectron S.A. e a venda da tecnologia para a israelense Elbit Systems, via sua subsidiária AEL Sistemas, por meros US$ 50 milhões..
Quem traz os fatos é o pesquisador Henrique Alvarez, em sua tese sobre o tema.
Em 2006, a Embraer e a Força Aérea Brasileira (FAB) deram início a um projeto que prometia revolucionar a comunicação militar no país: o Link-BR2. O sistema, capaz de conectar aeronaves, centros de comando e diferentes meios militares em tempo real, era a resposta brasileira à crescente demanda por interoperabilidade, inteligência e segurança nas operações de defesa.
O desenvolvimento do protocolo Link-BR2 foi concluído em 2009. Em 2012, a Mectron S.A., então parte do grupo Odebrecht, foi contratada para transformar o protocolo em um sistema operacional, com orçamento de R$ 193 milhões. O objetivo era claro: garantir que o Brasil tivesse domínio sobre uma tecnologia de comunicação militar de ponta, essencial para a soberania nacional.
Crise, Lava Jato e o desmonte da indústria nacional
A partir de 2015, o projeto começou a enfrentar dificuldades financeiras. O cenário se agravou com a Operação Lava Jato, que atingiu em cheio o grupo Odebrecht e, por consequência, a Mectron. Em 2017, a empresa foi encerrada. Enquanto parte da equipe e dos projetos de mísseis migraram para empresas nacionais como Avibras e SIATT, o setor de comunicações foi vendido para a AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit Systems.
A Lava Jato não se limitou a punir a Odebrecht. Uma extravagância – a delação coletiva de mais de 70 executivos – teve como objetivo central tirar toda a inteligência estratégica do grupo, esvaziá-lo, permitindo sua venda para a Ebit Systems, que há tempos vinha investindo em lobbies junto à Aeronáutica.
Reportagem da revista IstoÉ, de 2012, trouxe pistas sobre a notável influência da Elbit na Aeronáutica.
Segundo a revista, a Polícia Federal produziu um relatório de inteligência, enviado ao Palácio do Planalto, acusando o comandante da Aeronáutica, Brigadeiro Juniti Saito, de interesses pessoais com a AEL/Ebit. O documento mencionava a contratação do coronel reformado Luiz Guimarães Pondé, concunhado de Saito, para o cargo de diretor de relações institucionais da empresa. Saito limitou-se a responder à revista que a contratação foi “por critérios técnicos”.
Na mesma época, 2012, Bruno Baptista, filho do Brigadeiro Baptista Jr foi contratado como analista pela AEL Sistemas. Em abril de 2022 foi promovido a especialista e em agosto de 2024 a Gerente de Relações Institucionais.
A venda foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) em 2016, sem restrições. O órgão avaliou apenas aspectos concorrenciais, ignorando os riscos à soberania nacional. Uma petição da Rafael Advanced Defence Systems, alegando transferência prévia de tecnologia, foi rejeitada.
O que estava em jogo
O Link-BR2 não era apenas um sistema de comunicação. Junto com ele, foram transferidos para a AEL Sistemas outros projetos sensíveis, como o Rádio Definido por Software (RDS), computadores aeronáuticos, subsistemas de comunicação e telemetria. Todos financiados com recursos públicos e desenvolvidos para garantir autonomia tecnológica ao Brasil.
A transferência desses ativos para uma empresa estrangeira violou a Diretriz nº 22 da Estratégia Nacional de Defesa, que determina a busca pela autonomia em tecnologias indispensáveis à defesa. O Estado brasileiro, ao apoiar empresas nacionais, deveria garantir o controle sobre as tecnologias desenvolvidas, evitando sua transferência para o exterior.
O alerta internacional: o caso Crypto AG
O episódio brasileiro encontra paralelo no escândalo internacional da Crypto AG. Revelado em 2020, o caso mostrou que a empresa suíça, fabricante de equipamentos de criptografia, era controlada secretamente pela CIA e pelo serviço de inteligência alemão (BND). Por décadas, mais de 120 países, incluindo o Brasil, tiveram suas comunicações militares e diplomáticas espionadas por meio de equipamentos adulterados.
Mesmo após suspeitas desde os anos 1990, o Brasil continuou adquirindo equipamentos da Crypto AG até 2021, inclusive para o programa PROSUB, considerado o maior projeto de capacitação industrial e tecnológica da defesa nacional. O episódio evidencia que possuir equipamentos estrangeiros, mesmo com códigos nacionais, não garante segurança total.
Soberania em xeque
A incorporação da Mectron Comm pela AEL Sistemas, em 2020, consolidou a transferência de tecnologias estratégicas para o controle estrangeiro. Enquanto parte dos projetos de mísseis foi mantida sob controle nacional, inscrita como Produto Estratégico de Defesa (PED), o setor de comunicações militares ficou vulnerável.
O caso Link-BR2 expõe a fragilidade da política industrial e tecnológica brasileira, especialmente em áreas sensíveis como defesa e segurança cibernética. A dependência de empresas estrangeiras compromete a capacidade de comando, controle e proteção de informações estratégicas.
O que fazer?
O episódio reforça a necessidade de políticas públicas que estimulem o desenvolvimento nacional, protejam a propriedade intelectual e garantam a continuidade produtiva local. A adoção de algoritmos de Estado e o fortalecimento de empresas nacionais, como a Kryptus, são passos importantes para mitigar riscos e recuperar a soberania perdida.
O caso Link-BR2 é um alerta para o Brasil. Decisões políticas, econômicas e jurídicas podem impactar profundamente a segurança nacional. A experiência internacional mostra que a vulnerabilidade tecnológica pode ser explorada por potências estrangeiras, colocando em risco informações estratégicas e a própria defesa do país. O Brasil precisa aprender com esses exemplos e investir na reconstrução de sua Base Industrial de Defesa, priorizando a autonomia e a soberania em áreas sensíveis.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)