E SE O CHEGA GANHAR ÁS PRÓXIMAS ELEIÇÕES EM PORTUGAL ?

O que fazem estes partidos quando conquistam o poder? Mudam as regras, de forma a conservá-lo,para lá de todos os escrutínios

Desde que vimos um porco a andar de bicicleta, um ciclista a atropelar um avião e o Chega a tornar-se o segundo maior partido português, já acreditamos em tudo. Portanto, mesmo tendo em conta que a sondagem da Aximage para o DN, cuja honestidade não se questiona, é, tecnicamente, um “barómetro”, equivalente aos barómetros diários de alguns canais de televisão em tempo de eleições, com menos de 600 inquiridos – metade do mínimo exigível para um estudo de opinião clássico –, o facto de o partido de André Ventura aparecer à frente do PSD e do PS não é nenhum disparate. A coisa pode mesmo acontecer, mais tarde ou mais cedo e, atendendo ao desempenho de 100 dias de Governo da AD, mais cedo do que tarde. Ainda por cima, as críticas de toda a oposição ao Governo servem para fazer o Chega crescer, mesmo que este partido não faça nada – e até apareça com um ar responsável a querer fazer acordos em sede de Orçamento do Estado com Luís Montenegro. Para os eleitores inclinados a votar Chega, cada crítica de José Luís Carneiro pode, como já alguém escreveu, potenciar a intenção de voto no Chega e não no PS – que também, alegadamente, falhou, estando essa memória muito recente.

A pergunta, pois, que deve ser feita, é a seguinte: o que acontecerá, no País, se o Chega ganhar as próximas eleições, embora – não exageremos! – sem maioria absoluta? Será que vai tocar a reunir, no PSD e no PS? Muitos exemplos internacionais nos dizem que os partidos centrais, e, às vezes, não tão centrais assim (como em França), que ainda tenham força para isso, tendem a unir esforços para isolar a direita radical e populista, impedindo-a de atingir o poder. Isto mediante alianças, às vezes contranatura, às vezes não. Alianças pré ou, sobretudo, pós-eleitorais. Esse ensinamento diz-nos que o primeiro instinto dos partidos do dito sistema – e se não for este sistema, há de haver outro, não se sabendo qual, exatamente, mas teme-se que bem pior… – tenderão a aliar-se para isolar Ventura e impedi-lo de ser primeiro-ministro. Nessa altura, então, sim, pode ressurgir um fantasma do passado, mas que, com todos os defeitos, deu provas, nos anos 80 do século XX, de ter capacidade para salvar o País: o Bloco Central! Voilà: um grande centrão seria o remédio provisório para retirar gás ao populismo ou, muito mais provável, para retardar a sua chegada ao poder e adiar o inevitável. Nisso, o que se passar em França, nos próximos tempos, dará, como deram sempre os franceses, as indicações para o futuro da Europa.

Mas esse instinto de sobrevivência, que coloca mais desafios ao PSD do que ao PS, pelo facto de o Chega poder engolir todo o espaço à direita, dependerá muito das circunstâncias táticas e das lideranças de cada um dos partidos. Se fizermos o exercício de imaginar um PSD liderado por um perfil do tipo Passos Coelho – não quer dizer que seja o próprio… –, facilmente admitimos que não haverá nenhum problema em deixar o Chega governar, em vez de pedir batatinhas ao PS. Por outro lado, um perfil tipo Passos, no PSD, poderia mitigar o crescimento do Chega, porque o eleitorado se dividiria facilmente – é o que está a tentar fazer Luís Montenegro com toda esta história da imigração. Se, por outro lado, imaginarmos à frente do PS um perfil do tipo Pedro Nuno Santos – não será, quase de certeza, o próprio… –, também não vemos os socialistas a darem a mão aos sociais-democratas para afastar o Chega. Pelo contrário, o que eles querem é empurrar o PSD para os braços do Chega – ou para as respetivas goelas. Com um bonito resultado que já se anteviu nas eleições de 18 de maio: o PS ainda vai primeiro…

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Nesta edição da VISÃO, o autor do revelador livro Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho, diz-nos: “Começo a pensar que o melhor que pode acontecer é o Chega ser governo”, porque “seria remédio santo para se perceber o que está ali e se calhar seriam os próprios eleitores a ir buscar os governantes pelos colarinhos ao fim de alguns meses”. Esta é a tese da “vacina”. Mas, como já escrevi nesta coluna, esta tese tem alguns problemas. Nesse texto, que então publiquei, lembrava o que fazem estes partidos quando conquistam o poder: mudam as regras de forma a conservá-lo, para lá de todos os escrutínios. E elencava: a asfixia da imprensa livre, e o banimento daquilo a que chamam o “jornalixo”, usando todos os meios fiscais e legais, apoios, contratos, publicidade institucional, pressão e chantagem sobre clientes privados que compram publicidade nos meios. Asfixia, nomeadamente, financeira, das universidades, com purgas de professores não alinhados com a situação (como faz Trump, na América, com Harvard). Asfixia e controlo dos órgãos de informação do Estado e chantagem com as televisões privadas – no plano de concessão das licenças, publicidade institucional, pressão e ameaça de punição sobre os anunciantes (com perdas de licenças, raides do fisco ou fim de contratos com o Estado), etc. Desrespeito pelas minorias (sobretudo, as minorias políticas), através da intimidação, no Parlamento, sobre os outros deputados, sobre os cidadãos não alinhados, perseguição da oposição com bots e hordas nas redes sociais e intimidação de indivíduos. Pressão sobre a Justiça, nomeações nas direções das polícias e nos tribunais, a começar pelo Constitucional e órgãos reguladores. Fecho de outros órgãos reguladores. Asfixia financeira de Fundações e ONG independentes. Subversão de concursos públicos do Estado para favorecer empresas amigas (e financiadoras). Adulação das forças de segurança e militares, aumento da arbitrariedade da polícia, encorajamento de milícias digitais e mesmo populares (informais), com fechar de olhos em ajustes de contas políticos, por via da ameaça, violência física ou eliminação física de adversários, sobretudo, a nível local. Tentativas de fraude eleitoral, com intimidação dos delegados dos partidos concorrentes em mesas de voto. A cartilha, que nesse texto descrevia, é extensa e está cada vez mais à vista.

Entretanto, o Chega tem um problema estratégico de curto prazo. No momento em que escrevo, ainda não se conhece a decisão de André Ventura sobre as presidenciais – e pode ser que essa informação já tenha sido tornada pública no momento em que o leitor lê estas linhas. O que se pode dizer, em qualquer caso, é que Ventura tem um dilema: com a pulverização de candidaturas à direita e a presença forte de “um homem a cavalo” como o almirante Gouveia e Melo, a sua candidatura é de alto risco. Todavia, o segundo partido do País (e “primeiro” nas “sondagens”…) não pode perder por falta de comparência e tem mesmo de ir a jogo. Ou com uma candidatura envergonhante que alcance um resultado pífio como o das últimas europeias, ou o próprio Ventura, arriscando-se a ter um resultado inferior ao das legislativas – ou a levar um banho na segunda volta, com quase 80% do País a votar no outro candidato, seja ele quem for. Porque uma coisa é ganhar eleições com 24% ou 25% dos votos, num quadro muito dividido. Outra coisa é um mano a mano, onde a percentagem dos eleitores contra Ventura se torna visível e esmagadora. Ora, não há alternativa interna credível a André Ventura (mesmo que, entretanto, ele tenha apresentado outro candidato). Ah, se ao menos Rita Matias tivesse mais de 35 anos… 

FELIPE LUIZ ” REVISTA VISÃO” ( PORTUGAL)

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