
Redigido por Mário Draghi, o documento não se limita a apontar falhas: ele propõe uma refundação econômica e institucional da UE.
O Relatório Draghi, entregue à Comissão Europeia em 2024, é talvez o mais contundente diagnóstico da decadência estratégica da União Europeia desde a crise do euro. Redigido por Mário Draghi — ex-presidente do BCE e ex-premiê italiano — o documento não se limita a apontar falhas: ele propõe uma refundação econômica e institucional da UE.
Mas um ano depois, o que se vê é um continente paralisado entre o reconhecimento da urgência e a incapacidade de agir.
A Europa que EncolhePlay Video
Draghi não poupou palavras para traçar o diagnóstico da decadência europeia: a Europa cresceu menos que os EUA por duas décadas, paga energia até cinco vezes mais cara que seus concorrentes e possui apenas quatro das cinquenta maiores big techs do mundo. A soberania europeia, segundo ele, é uma ilusão — sem integração financeira, sem instrumentos comuns de investimento, sem capacidade de decisão rápida.
O setor energético é emblemático: 93% do gás consumido em 2021 era importado, os custos de CO₂ encarecem a geração elétrica, e os gargalos de infraestrutura tornam a transição verde uma promessa distante. A fatura de combustíveis fósseis em 2023 foi de €390 bilhões — 2,7% do PIB europeu.
Propostas Visionárias
A partir desse mapa do inferno, Draghi propôs metas ambiciosas:
- Investimentos de 5% do PIB ao ano, como no pós-guerra.
- Criação de instrumentos financeiros comuns.
- Aceleração da inovação em IA, semicondutores e biotecnologia.
- Fortalecimento de indústrias estratégicas.
- Reforma da governança europeia.
Era, em essência, um plano de reconstrução continental — uma tentativa de devolver à Europa o protagonismo perdido.
Mas a implementação tem sido decepcionante. Apenas 11 a 14% das medidas estão em andamento. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão, é vista mais como comentarista do caos global do que como líder transformadora. O Parlamento acusa a Comissão de ter “enterrado os relatórios Draghi e Letta em um campo de golfe”.
A resistência à emissão conjunta de dívida, a fragmentação política e a burocracia comunitária travam qualquer avanço. A proposta de um mercado único de capitais foi adiada para 2028. A integração fiscal e regulatória segue emperrada. E os investimentos continuam dispersos e tímidos.
O Risco da Irrelevância
O que está em jogo não é apenas competitividade. É a própria relevância geopolítica da Europa. Sem capacidade de financiar sua transição energética, sem autonomia tecnológica, sem instrumentos de defesa comuns, a UE corre o risco de se tornar um apêndice dos EUA ou da China — economicamente irrelevante, politicamente marginal.
O Relatório Draghi é um chamado à ação. Mas, como tantos outros na história europeia recente, pode acabar como um documento brilhante esquecido em gavetas burocráticas.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN”( BRASIL)