
Precisamente, há sete décadas, morria na sua Madri natal, em 1955, isolado e condenado a um ‘exílio moral’ na própria pátria, o maior filósofo ibérico do século XX, José Ortega y Gasset, aos 72 anos, autor da monumental obra “A Rebelião das Massas”, considerada um clássico do pensamento liberal e conservador.
Desdobramento de uma série de ensaios intitulados “A Espanha Invertebrada”, publicados a partir de 1917, no diário liberal madrilenho “EL Sol”, o livro foi lançado em 1930, exatamente às vésperas da proclamação da progressista Segunda República da Espanha, ocorrida em 14 de abril de 1931, e que vigoraria por oito anos, até 1º de abril de 1939, quando as tropas insurgentes do Generalisimo Francisco Franco tomaram o poder.
Formado em escola e universidade da Companhia de Jesus, respectivamente, na andaluza Málaga e em Deusto, no País Basco, com temporadas na Alemanha, sobretudo, em Marburg, estudando os valores filosóficos de Immanuel Kant (1724 – 1804), Ortega y Gasset era um ‘oásis’ de razão na Espanha entre a Grande Guerra (1914 – 1919) e a Segunda Guerra (1940 – 1945), em meio a um ambiente, profundamente, dividido e instigado pela ‘luta de classes’.
Uma sociedade bipolarizada e na qual as ideologias se odiavam mutuamente. Com a inevitável eclosão da Guerra Civil, em 18 de julho de 1936, Ortega y Gasset decidiu morar no exterior e só retornou após 10 anos. Inicialmente, na cosmopolita Buenos Aires, na Argentina, e, posteriormente, em 1942, em Lisboa, onde ficaria até o final da Segunda Guerra, quando regressaria a Madri. Nos três anos em que residiu na capital portuguesa escreveu “Origem e Epílogo da Filosofia” – uma das mais importantes de suas 50 obras e palestras. Isolou-se, nos últimos 10 anos de vida, numa Espanha franquista que apenas o tolerava – fazendo, porém, algumas viagens pontuais à Alemanha Ocidental, Suíça e Inglaterra para ministrar conferências, entre as quais, a célebre “Meditação da Europa”, em 1949, em Berlim.
Foi um dos primeiros, de sua época, a tratar o problema da historicidade fora dos padrões do evolucionismo e mesmo do olhar marxista ou positivista. Ele atribuía à História, virtuoso como era, uma nova categoria de conhecimento – a exemplo de seu contemporâneo alemão Martin Heidegger (1889 – 1976) e do ‘Realismo Histórico’ do napolitano Benedetto Croce (1862 – 1952).
Pertenceu a uma geração que presenciou o fim do Império Espanhol, com a vitória, em 1898, dos Estados Unidos, em uma guerra de poucos meses, quando três das últimas colônias da Coroa de Madri passaram ao controle de Washington – duas das quais, as caribenhas Cuba e Porto Rico, e a outra no Extremo Oriente, as Filipinas, que haviam sido conquistadas pelo português transmontano Fernão de Magalhães (1480 – 1521).
A derrota diante dos Estados Unidos, predominantemente, protestante e maçônico, influenciou fortemente “A Rebelião das Massas”, que, a rigor, sugere a criação de uma elite de intelectuais e cientistas para elaboração de uma política a ser aplicada no país, voltada, principalmente, à Europa. O estudo acabaria por inspirar, quase 50 anos depois, o líder socialista lusitano Mário Soares (1924 – 2017), no período seguinte à Revolução dos Cravos, quando setores extremistas do golpe de 25 de Abril de 1974 chegaram a discutir qual o modelo de socialismo seria ideal para Portugal. Muitos eram os que propunham o comunismo da Bulgária ou o quase ‘nacional-socialismo-arabista’ da Argélia.
Ortega y Gasset foi ainda o fundador, em 1923, do arejadíssimo periódico de ideias “Revista de Occidente”, no formato de livro, no qual permaneceu como diretor até o começo da Guerra Civil. A publicação só seria editada novamente, em 1976, após o fim do regime franquista.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO”( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador