MINO CARTA

Mino Carta tinha a estética da ruptura — gostava de ácidos, de gumes e de ângulos agudos

O nome “Mino Carta” chamou-me pela primeira vez a atenção no momento em que li um texto seu sobre a teoria do medalhão de Machado de Assis. Essa crônica apresentou-me o escritor e o cronista — ambos detestavam a honesta mediania política. Mino Carta não suportava o carreirismo, nem a política como arte previsível, nem os políticos que passam a vida a dizer o que é “aceitável-porque-já-aceite”. Mino Carta gostava da imaginação.

Mino Carta, no fundo, detestava o politicamente correto. Não lhe agradava a política de “focus group”, aquela que consiste, basicamente, em conhecer antecipadamente o gosto do auditório de modo a garantir que o que se vai dizer seja do agrado do público.  Essa operação prévia de “contar narizes”, parecia-lhe uma operação de falsificação da política naquilo que mais intrinsecamente a carateriza — o risco da ação.

Mino Carta nunca gostou dos políticos que se reclamam da prudência e do bom senso e que, na maior parte dos casos, não passam de políticos sem a mais pequena centelha de imaginação. Machado de Assis coloca assim, na boca do pai, o programa para uma carreira política bem sucedida do filho:

“Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória (…) proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.” Sem esquecer a importância da publicidade para o sucesso individual: longe de inventar um tratado científico de criação de carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos.

Sucesso garantido. A teoria do medalhão é uma rábula notável sobre o fenômeno atual do politicamente correto. Foi disto que falamos na única ocasião em que o conheci pessoalmente, apresentado por Sérgio Lírio. E é assim, lembrando a nossa única conversa e o nosso único encontro, que o quero homenagear.

Mino Carta amou a política e nada lhe era mais intolerável do que a superficialidade e a covardia. Mino Carta gostava do que era novo e do que era original. Mino Carta tinha a estética da ruptura — gostava de ácidos, de gumes e de ângulos agudos. Gostava do risco. Gostava da coragem. Mino Carta morreu como viveu — um espírito livre. Saravá.

JOSÉ SOCRATES “BLOG ICL NOTÍCIAS ” ( PORTUGAL / BRASIL)

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