
O filósofo marxista italiano Antonio Gramsci (1891 – 1937), nascido na ilha da Sardenha, fundador, em 1921, do Partido Comunista Italiano (PCI), na cidade toscana de Livorno, após romper com o Partido Socialista Italiano (PSI), era, ao contrário do que imaginam muitos de seus detratores, um erudito crítico literário. Foi ele quem, nos célebres Cadernos do Cárcere, elaborados nos anos 1930, durante sua prisão pelo regime fascista de Benito Mussolini (1883 – 1945), estruturou o projeto da linguagem ‘nacional-popular’ para as letras peninsulares – a fim de que os escritores do Bel Paese deixassem de seguir o padrão dominante dos romances franceses e buscassem um caminho próprio em suas obras de ficção.
O modelo da França marcou, desde o século XIX, com efeito, o estilo e as tramas das novelas na Europa – e inclusive nas Américas. Foram fontes de inspiração, para todos os povos, autores, como Stendhal, pseudônimo de Henri-Marie Beyle (1783 – 1842), Alphonse De Lamartine (1790 – 1869), Honoré de Balzac (1799 – 1850), Victor Hugo (1802 – 1885), Alexandre Dumas, pai (1802 – 1870), Charles Baudelaire (1821 – 1867), Gustave Flaubert (1821 – 1880), Alexandre Dumas, filho (1824 – 1895), Jules Verne (1828 – 1905), Émile Zola (1840 – 1902), Guy de Maupassant (1850 – 1893), Arthur Rimbaud (1854 – 1891), Maurice Barrés (1862 – 1923) e Marcel Proust (1871 – 1922), dentre outros.
Estes influenciariam, ainda, de modo preponderante, o romance português. A partir, principalmente, da segunda metade do século XIX, com a Geração de 1870, formada por cinco grandes vultos reunidos no extraordinário grupo do poveiro universal, Eça de Queiroz (1845 – 1900), composto pelos poetas Antero de Quental (1842 – 1891), açoriano, e Guerra Junqueiro (1850 – 1923), transmontano, o romancista tripeiro Ramalho Ortigão (1836 – 1915) e o historiador alfacinha Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845 – 1894).
Sob forte influência dos fabulosos romans français, Oliveira Martins, diferentemente de seu conterrâneo e contemporâneo lisboeta Alexandre Herculano (1810 – 1877), foi pioneiro, como historiador lusitano, ao narrar, com o olhar mais científico e menos ufanista, a trajetória completa dos primeiros sete séculos de Portugal – inspirando-se no grego Heródoto (485 a.C. – 425 a.C.), considerado o “Pai da História”, ao registrar a invasão da Pérsia à Grécia no final do século V antes de Cristo.
Foi concebida, assim, sua monumental “História de Portugal”. A vasta produção de Oliveira Martins tem início em 1867 com “Febo Moniz” e se estende até os dias que antecederam sua morte. A “História de Portugal” seria lançada em 1870 – mesmo ano em que foi impresso outro de seus soberbos estudos, “História da Civilização Ibérica”. Também pesquisou a presença lusitana nas Américas e, em 1880, escreveu “O Brasil e as Colônias portuguesas”. Mas, francamente, me conquistou ao sentenciar, no princípio da “História de Portugal”, que todas as vezes em que Portugal debruçou-se sobre o mar, foi grandioso e respeitado, porém, ao voltar-se para a Europa, tornou-se pequeno, e não foi respeitado.
Consegui adquirir quase todas as obras de Oliveira Martins, cerca de 50, entre os anos 1970 e 1980, quando, como correspondente em Madri e Roma, era deslocado, frequentemente, para alguma cobertura jornalística em Lisboa. A cada viagem, pontualmente, fazia uma incursão à acanhada sede da Guimarães Editores, detentora de seus direitos de publicação, à Rua da Conceição da Glória, no Bairro Alto, e comprava um ou dois títulos. E encomendava mais um livro do autor para a próxima visita.
Devo a Oliveira Martins o muito que aprendi sobre a historiografia da epopeia portuguesa nos mares – apesar de seu invariável ‘pessimismo’ republicano e maçônico, característico, aliás, da Geração de Eça de Queiroz. Ele abordou o ciclo lusitano das guerras civis do século XIX que Herculano, censurado, foi obrigado a ignorar.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL )
Albino Castro é jornalista e historiador