CAÇA ÀS BRUXAS NO GOVERNO MILEI: QUEM VAZOU AS GRAVAÇÕES DO SUBORNO?

Javier Milei e sua irmã Karina procuram o responsável por espalhar o escândalo. Por que Santiago Caputo está sob suspeita? O papel de Villarruel e Marcelo Pagano.

A proverbial paranoia de Javier Milei — que discutimos há alguns dias nesta coluna — parece justificada pela primeira vez. As gravações de áudio de Diego Spagnuolo, ex-chefe da Agência Nacional para a Deficiência (Andis), que revelou um sistema de arrecadação ilegal que, segundo seus cálculos, rendeu até US$ 800.000 por mês para a irmã do presidente, Karina, representam um golpe terrível para o governo. E o presidente ainda não sabe de onde veio. Ele não sabe quem vazou as gravações. E ele parece não conseguir responder publicamente, como se tivesse ficado “grogue”.

De onde veio o golpe? Esta é a pergunta que os irmãos Milei se fazem, já que agora desconfiam de todos e desencadearam uma verdadeira caça às bruxas dentro do governo.

A primeira hipótese, segundo as regras, é para consumo de “tolos” e, sem muita originalidade, aponta para a vice-presidente Victoria Villarruel, inimiga jurada do líder libertário. Segundo essa visão, Villarruel estaria por trás do vazamento devido à sua expertise em espionagem. Um de seus assessores de maior confiança é Claudio Gallardo, ex-chefe de inteligência do General César Milani no Exército. Esse tipo de expertise é necessário para gravar alguém como Spagnuolo sem que ele perceba e depois distribuir o material. A explicação acrescenta que o funcionário deposto também é amigo de Villarruel, embora esse argumento seja discutível: porque Spagnuolo é, muito antes de ser amigo de “Vicky”, ex-advogado de Milei e um dos funcionários que mais o visitavam na Quinta de Olivos.

Desorientados, os irmãos também deixaram claro que suspeitam de vários ex-membros do bloco libertário na Câmara dos Deputados, como Marcela Pagano, que renunciou ao cargo na mesma época em que as gravações de áudio foram vazadas. Outro que deixou o bloco na mesma época foi Carlos D’Alessandro, que se apresentou para confirmar o que foi ouvido nas gravações. Ele disse saber que Spagnuolo vinha discutindo o assunto em conversas privadas. O fato de o vazamento ter ocorrido no serviço de streaming e no site de Jorge Rial também levanta preocupações para os irmãos Milei: eles sabem que a deputada Pagano é uma fonte regular desses veículos de comunicação.

No entanto, a hipótese mais preocupante sobre quem vazou os áudios é a que aponta para o assessor estrela do presidente, Santiago Caputo, atualmente em desacordo com Karina no selvagem conflito interno do chamado Triângulo de Ferro. Caputo não só administra a Secretaria de Inteligência por meio de seu aliado Sergio Neiffert, como também mantém contato com inúmeros jornalistas, pois controla a publicidade oficial do governo. Entre esses comunicadores próximos ao assessor está Alejandro Fantino, que entrevistou Spagnuolo há um ano em seu programa de streaming Neura. Foi uma entrevista bastante curiosa, precedida por uma longa conversa confidencial entre o apresentador e seu convidado. As gravações, sabe-se, datam do mesmo período. Spagnuolo foi gravado no Neura antes de ir ao ar?

Vejamos o que disseram naquela reportagem. “Muitas vezes, pessoas honestas como você são usadas como vigaristas e acabam jogadas no lixo”, brincou Fantino com o convidado. Ele acrescentou: “Temos que tomar cuidado para que isso não aconteça em Lule, Tucumán”, concluiu, nomeando a cidade duas vezes, que na verdade termina com “s”. Era uma alusão óbvia a “Lule” Menem, um colaborador-chave de Karina e identificado como o coletor informal de propinas para o Fundo de Deficiência.

Para dissipar suspeitas, Caputo exagerou seu papel de bombeiro durante as horas em que os irmãos tentaram manter a imprensa amiga em silêncio sobre o assunto, mas não obtiveram sucesso, apesar das repetidas tentativas do assessor de sobrecarregar os celulares dos jornalistas e executivos listados em sua agenda. Mas a verdade é que Karina desconfia dele nessa história.

Há algumas semanas, quando o conflito interno entre o assessor e a irmã do presidente se acirrava por causa das listas da província de Buenos Aires, nas quais o líder karinista Sebastián Pareja marginalizava o grupo de Caputo “Las Fuerzas del Cielo”, quem abordou o assunto em sua transmissão foi, mais uma vez, Fantino. O que ele basicamente fez foi transmitir a reclamação de Caputo. “Esse Pajera aparece, qual é o nome dele? Pareja, Pajera, Pajerto, qual é o nome dele?”, provocou. Os irmãos Milei estão de olho no assessor estrela. E a verdade é que ninguém que já esteve lá saiu ileso.

FRANCO LINDENER ” REVISTA NOTÍCIAS” ( ARGENTINA)

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