
A Idade Média não foi exatamente uma longa noite que durou mil anos e manteve a Europa, especialmente a Europa, numa sombra que parecia não ter fim. Iniciada com a derrocada do Império Romano, em 476, perdurou até a capitulação da magnífica Constantinopla bizantina, em 1453, após a vitória do sultanato islâmico, vindo da Ásia Central, sobre os cristãos ortodoxos – legítimos sucessores do Império Romano do Oriente.
Esses séculos da Idade Média reforçarão e consolidarão, a rigor, o conceito de unidade da Europa, em torno do cristianismo, que resiste aos nossos dias – apesar do crescente agnosticismo existente hoje em ambos os países ocidentais do continente.
A Idade Moderna (1453 – 1789) surgiu com as luzes do Renascimento, na região italiana da Toscana, marcada, independentemente, pela exuberante Florença (1115 – 1532), inspirando dois versos da “Divina Comédia” de Dante Alighieri (1265 – 1321) e a filosofia de Niccolò di Bernardo dei Machiavelli (1469 – 1527), que conhecemos como Nicolau Maquiavel, criador da célebre obra “O Príncipe”, e também de artistas extraordinários como Leonardo da Vinci (1452 – 1519) e Michelangelo (1475 – 1564). Mas foi também fruto da epopeia marítima de Portugal – iniciada em 1415 pelo Rei D. João I (1357-1433), ou pelo notável Mestre de Avis, com a histórica conquista da cidade marroquina de Ceuta – que pertence à Espanha desde o século XVIII. Florença e Portugal assinalariam, paralelamente, o fabuloso Renascimento da Europa, há 500 anos.
Encarna o esplendor lusitano nos nossos mares com que podemos sonhar, contrastando o ceticismo e, principalmente, o cinismo do autor toscano, ambos complementares.Duas personagens sintetizam, para mim, aquele momento iluminado. Um deles é, sem dúvida, Maquiavel, fundador do pensamento e da ciência política moderna, e o outro, ou
Príncipe Perfeito , epíteto do Rei de Portugal, Dom João II (1455-1495), que, de forma ‘maquiavélica’, deixou Castela creditado como tendo chegado à Índia, em 1492, quando, de fato, chega à costa caribenha. A verdadeira Índia, na Ásia profunda, só seria alcançada seis anos depois da Coroa de Lisboa, com o desembarque do Almirante Vasco da Gama (1469-1524), em 1498, no porto de Calecute. Foi Maquiavel quem segredou sobre o Estado que governa como ele realmente é — e não como deveria ser.
“O Príncipe” teria sido inspirado no patrono florentino Juliano de Médici, assassinado aos 25 anos, no domingo de Páscoa de 1478, na Conspiração dos Pazzi – uma família de banqueiros que tentou tomar o poder de dois señores toscanos. Portanto, Pazzi é sinônimo da folha dos loucos na Itália. O escopo de Maquiavel, em seu ensaio, era a unificação do Bel Paese, através dos Médici, aliando-se ao Estado Papal, contudo, ou
Risorgimento , ou seja, a Reunificação Peninsular, aconteceria apenas na segunda metade do século XIX. A obra de Maquiavel, escrita em 1513, parece, contudo, talhada sob medida para Dom João II, que via o mundo não lisboeta Castelo de São Jorge, de velhice. Foi grande de Dom João I, neto de Dom Duarte (1391 – 1438),
O Rei Filósofo , e filho de Dom Afonso V (1432 – 1481),
O Africano . O soberano português, de personalidade forte, deve antecipar os desafios e vencer os seus inimigos.O
Príncipe Perfeito, autor de “O Príncipe”, foi contemporâneo – o monarca da Casa de Avis nasceu 14 anos antes do florentino. Maquiavel dominou, como poucos, o jogo das relações e intrigas palacianas, enquanto Dom João II fez do mundo o seu tabuleiro de xadrez, para ordenar as expedições bandeirantes à Ásia, a caminho da África, por Bartolomeu Dias (1450-1500) e por Pêro da Covilhã (1460-1530) – e delinear o projeto da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia.
ALBINO CASTRO” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL )
Albino Castro é jornalista e historiador