
CHARGE DE MIGUEL PAIVA
“A lógica do trumpismo é a mesma dos CEOs genéricos. Tem nas mãos um país extraordinariamente complexo, sujeito a um conjunto de regras jurídicas, econômicas, de mercado, a uma estrutura de fiscalização, de controle, a um sistema de freios e contrapesos. E o CEO sai tomando decisões à galega, buscando resultados imediatos, sem o menor conhecimento sobre o funcionamento da máquina, sobre as implicações futuras de suas decisões.”
Visto em perspectiva, a caminhada do Ocidente para a autocracia teve os seguintes eventos causadores.
Primeira etapa – a era digital
O início foi na década de 80, quando parecia que os Estados Unidos seriam sufocados pelo milagre japonês. Na época definiu-se um planejamento estratégico, apostando na revolução digital e na indústria espacial. O exemplo máximo da pujança tecnológica norte-americana era a Bell Labs. Foi um período em que as empresas de telefonia estavam na vanguarda tecnológica.
Ao mesmo tempo, Ronald Reagan lançou o programa conhecido como Reaganomics, com cortes de impostos sobre a renda e para empresas, desregulamentação de setores, como energia, transportes e finanças, e aumento dos gastos militares.
O avanço da telemática e da logística definiram uma nova dinâmica industrial, com a criação das cadeias globais de suprimentos.
Segunda etapa – o neoliberalismo
Esse dinamismo não mais combinava com as estruturas estatais centralizadas que marcaram tanto a então União Soviética, quanto a China e o próprio Brasil.
Houve dois modelos de transição. A China definiu um planejamento racional, preservando em mãos do Estado os setores essenciais de infraestrutura, e abrindo a competição na ponta. Ou seja, para que a competição fosse a mais aberta possível, haveria a necessidade de preservar, em mãos do Estado, setores essenciais para o funcionamento dos mercados.
Já a ex-URSS e o Brasil de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso optaram pela “teoria do choque”: a abertura indiscriminada da economia, julgando que a mão invisível do mercado organizaria os fatores de produção.
O meu livro “Os Cabeças de Planilha” encerra com uma entrevista com FHC. Nela, ele demonstra não dominar nenhum dos fatores de desenvolvimento – inovação, políticas setoriais, papel das PMEs, desenvolvimento regional. Indaguei, então, qual a sua fórmula para o desenvolvimento, e sua resposta foi de uma simplificação assustadora: criar vantagens para os setores mais internacionalizados da economia (os bancos de investimento), e eles se desenvolvendo levariam o país junto.
O fator Reagan e Margaret Thatcher, com a cooptação do mundo acadêmico norte-americano, lograram impor uma ideologia vitoriosa, que contaminou até sua alternativa mais legítima: a social democracia europeia.
O Brasil entrou no jogo da globalização perdendo suas vantagens competitivas: energia barata, um setor industrial robusto e indústrias de base. A síndrome da “lição de casa” dominou a economia e a política. O país precisava se sacrificar para colher os frutos do desenvolvimento. Sacrificar-se significava cortar programas sociais, direitos, investimento em pesquisa, mudar a aposentadoria. Feitos os sacrifícios, o desenvolvimento não vinha. Aí o Ministro da Fazenda – Pedro Malan, Antonio Palocci, tanto faz – vinha a público dizer que o sacrifício não tinha sido suficiente.
Esse lenga-lenga garantiu o predomínio da ultra financeirização em regime democrático até a crise de 2008. Foi uma ideologia tão forte que, mesmo quando derrotado nas urnas – como foi o caso das duas vitórias de Lula -, manteve o domínio da política econômica.
Terceira etapa – a crise de 2008
Com a crise de 2008, o discurso neoliberal morreu, mas deixou, como legado, uma enorme concentração de poder nas mãos do mercado. E o avanço inexorável de um novo ator político dos mais relevantes: as big techs. À globalização dos mercados financeiros seguiu-se a globalização do mercado de opinião, através das big techs.
Como procurei demonstrar no meu livro “A Conspiração Lava Jato”, a primeira batalha digital foi na eleição de Barack Obama, com a direita republicana valendo-se de fake news e algoritmos e os democratas recorrendo à militância digital. Ambos os lados decidiram usar o aprendizado interferindo na vida política de outros países. E os primeiros a chegar ao Brasil foram os supostos “bilionários do bem”, democratas, estimulando movimentos como o Vem Prá Rua e Viva Rio.
Não se tratava mais de disputar o poder no campo das ideias, mas de solapar governos com sucessivas “primaveras” ao redor do mundo.
Quarta etapa – a era dos CEOs
Os enormes ganhos proporcionados pelo mercado financeiro acabaram substituindo o capitalismo de família pelo capitalismo dos CEOs genéricos – executivos sem conhecimento necessário do setor, especializados em cortes de custos e aumento de dividendos.
O pioneiro foi Jack Welch, que assumiu a mais emblemática das empresas norte-americanas, a General Electric. Como o valor de mercado das empresas passou a ser um múltiplo dos dividendos, ele se empenhou ao máximo em reduzir os custos. Cortou em manutenção, em pesquisa e desenvolvimento. No começo, o valor da companhia explodiu. Depois, foi definhando ano a ano. Welch matou o futuro da GE ao não investir em inovação, em crescimento, em manutenção.
Esse modelo foi repetido em todas as grandes companhias, inclusive as brasileiras. Os desastres da Boeing, de Brumadinho, de Mariana, das Americanas, todos têm a mesma matriz, de corte em manutenção, pesquisa e desenvolvimento em favor do aumento imediato dos dividendos. E refletiu-se inexoravelmente na política.

Quinta etapa – o político CEO
Esse mesmo imediatismo – o desconhecimento das estruturas internas da companhia – foi aplicado no setor público, do qual Donald Trump é o espécime mais conhecido. Não apenas ele, mas os agentes econômicos que o sustentam politicamente.
A lógica do trumpismo é a mesma dos CEOs genéricos. Tem nas mãos um país extraordinariamente complexo, sujeito a um conjunto de regras jurídicas, econômicas, de mercado, a uma estrutura de fiscalização, de controle, a um sistema de freios e contrapesos. E o CEO sai tomando decisões à galega, buscando resultados imediatos, sem o menor conhecimento sobre o funcionamento da máquina, sobre as implicações futuras de suas decisões.
Por trás desse voluntarismo, tem o sucesso de dois governos autocráticos: Vladimir Putin, que conseguiu reerguer a Rússia, e o modelo chinês, bem mais sofisticado e complexo. Se ambos conseguiram sucesso abolindo normas democráticas, é sinal de que o que atrapalha os EUA são as restrições democráticas ao trabalho dos CEOs políticos. O mérito da China não seria um planejamento minuciosamente calculado e uma estrutura de poder coesa, levando os planos adiante, mas apenas o poder autocrático de seus dirigentes.
O padrão de política passa a ser, então, o discurso da antipolítica, os benefícios a quem detém poder econômico e a penalização dos desassistidos. As tarifas de Trump são pagas pelos consumidores, para compensar as benesses concedidas aos bilionários.
Em São Paulo e Minas Gerais, os governadores Tarcísio de Freitas e Romeu Zema praticam o mesmo modelo. Subsídios bilionários – e secretos – a grupos econômicos, e aumento do ICMS para os pequenos. Ou seja, o mesmo escândalo do Congresso, das emendas secretas, ocorre em dois dos principais estados do Brasil, sem que sejam conhecidos os beneficiários.
Em 2023, Minas Gerais deixou de arrecadar cerca de R$ 13 bilhões em decorrência de incentivos fiscais. A projeção para 2024 aponta para um valor ainda maior, na casa dos R$ 20,2 bilhões. Em 2024, foram revisados em São Paulo 263 benefícios fiscais de ICMS que causaram uma renúncia fiscal de R$ 10,3 bilhões ao estado.
O estado concede benefícios fiscais que incluem restrições, redução da base de cálculo, crédito presumido, diferencial e suspensão do ICMS.
Em São Paulo, a oposição tentou conseguir a relação dos grupos beneficiados pelos subsídios de Tarcísio e a ação foi derrubada pelo Tribunal de Justiça, sob a alegação de preservação do sigilo fiscal – sigilo com uso do dinheiro público!
E, em ambos os estados, os governadores têm como mote principal a palavra austeridade.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)