A EUROPA DOS ALTOS FUNCIONÁRIOS

O que mais surpreende é a insistência europeia no fingimento, como se fosse possível disfarçar o servilismo

Na próxima sexta-feira (15), Donald Trump cumpre a parte dois da humilhação europeia. A primeira foi na Escócia com as tarifas, a segunda será no Alasca com a guerra da Ucrânia — e desta vez a Europa não terá sequer lugar à mesa. Os dois “grandes líderes” discutirão entre eles o futuro do povo ucraniano — que também não terá direito a entrar na sala.

A coisa mais parecida com isto aconteceu há quase cem anos, em Munique, em setembro de 1938, quando a França e a Inglaterra decidiram entregar a Hitler a região dos sudetas na Checoslováquia, ignorando as alianças militares em vigor com este país. Também nessa altura, aos checos não foi dado o direito de falar em sua defesa ou sequer de entrarem na sala — a “sentença de Munique”.

Em todo este teatro político, que se desenvolve a uma velocidade estonteante, o que mais surpreende é a insistência europeia no fingimento. Como se fosse possível disfarçar o servilismo. Num momento, a violência da imposição das tarifas; no outro, a negligência geopolítica que trata as potências europeias como rostos do passado, uma espécie de clube de poetas mortos. Aí estão as duas dimensões da humilhação — por um lado, a afronta que faz corar de vergonha; por outro, a indiferença de quem trata os países europeus como atores políticos secundários nos assuntos do mundo.

Se os brasileiros, para quem escrevo, acham que estou a exagerar, por favor, repararem bem no breve resumo que vou fazer. Primeiro, Ursula Von Der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, esperou pacientemente que o presidente americano terminasse o jogo de golfe com o filho para ter a honra de se sentar com ele. Depois, aceitou tarifas de 15 por cento nos produtos europeus em troca de tarifas de 0 por cento americanas.

união europeia

Comprometeu-se, ainda, a não taxar as grandes tecnológicas americanas, acordou comprar 750 mil milhões de dólares de energia aos Estados Unidos e a investir 600 mil milhões de dólares naquele país (estamos ainda para ver com que base legal). Finalmente, prometeu comprar mais armas aos Estados Unidos para cumprir a meta de 5% do produto interno bruto que cada país da OTAN tem de gastar em armamento. Tudo isto, diz a senhora Von Der Leyen, em nome da “previsibilidade”.

No final, ainda usou a lisonja: “Quero, pessoalmente, agradecer ao presidente Trump pelo seu compromisso pessoal e liderança”. Agora imaginem que tudo isto se passava com o presidente Lula da Silva. Difícil imaginar, não acham?

Duas semanas depois, vem a “previsibilidade”: a guerra da Ucrânia será discutida entre Putin e Trump. Nem Europa, nem Ucrânia entrarão na discussão. Os americanos não respeitam a submissão, nem mesmo aquela que é dirigida aos seus próprios interesses. Particularmente essa.

A paz (se houver paz) será decidida no grande jogo das grandes potências e a Europa fica fora. A Europa será espectadora. No final, o mais difícil de aceitar é a resignação, a miserável resignação europeia aos “caprichos do mundo”. Ao olhar para aquela fotografia da Escócia, a fotografia de Von Der Leyen e de Trump, os dois cumprimentando-se mutuamente, compreendemos num instante a razão de tudo isto — a Europa é governada por altos funcionários. Uma desgraça.

JOSÉ SÓCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( BRASIL)

EX-PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL

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