
CHARGE DE REP ” PÁGINA 12″ ( ARGENTINA)
O agrupamento de cinco governadores sob o nome de Províncias Unidas pode não ser apenas a manifestação geográfica de um espaço físico — certas províncias neste caso — mas também o início da formação de um espaço ideológico que, após o big bang de Milei, pode transcender em muito seus criadores e seus territórios originais.
O caráter social-democrata do peronismo cordovês e do socialismo santafesino — que se irradia para seu aliado de longa data, o radicalismo local — compartilha, como fenômeno distinto do restante do país, o de serem territórios produtivos, ricos em recursos, berço da zona central e das pampas úmidas com a força de suas zonas rurais. Hoje, outras províncias se somam às que antes, devido à sua aridez, careciam das condições que agora a mineração ou os hidrocarbonetos oferecem: Jujuy com o lítio, Chubut e Santa Cruz com os hidrocarbonetos, os outros três membros das Províncias Unidas. A zona central ou zona úmida era uma metonímia para a zona produtiva em termos de dólares, aquela que gera ou pode gerar mais exportações. O centro não é mais o centro geográfico do país, e resta saber se, em sua busca por identidade no “meio”, pode aspirar a ser uma síntese — em diferentes proporções — da polarização para recriar um novo sistema bipartidário.
Mas se as Províncias Unidas estivessem antecipando uma reconfiguração do espaço ideológico, essas características comuns, totalmente materiais (território e economia), não seriam suficientes para explicar um fenômeno. Seriam necessários também componentes culturais que lhe permitissem integrar o restante das províncias, que, pelo menos em certa medida, carecem dessa materialidade. E vice-versa, as características materiais (agricultura, mineração ou energia) das cinco Províncias Unidas são compartilhadas por outras províncias que ainda não aderiram ao “grito federal”, embora algumas já insinuem que o farão após as eleições, dependendo do resultado, como Corrientes, por exemplo.Autoritários não gostam disso.A prática do jornalismo profissional e crítico é um pilar fundamental da democracia. Por isso, incomoda aqueles que acreditam possuir a verdade.Hoje mais do que nunca
E esse componente cultural unificador pode ser a origem comum, quase hereditária, do radicalismo e do peronismo como partidos que interpretam o ethos argentino. Por acaso, devido às suas semelhanças, tornaram-se concorrentes pela mesma base eleitoral, que se alternou entre os dois durante décadas.
O elo comum entre o radicalismo e o peronismo no interior do país é evidente no número de radicais que são e foram vice-governadores de governadores peronistas, e de radicais que se tornaram governadores como peronistas. Como o peronismo era a máquina eleitoral com maior chance de ganhar votos, muitos daqueles com aspirações a se tornarem governadores aderiram ao Partido Popular (PJ) como o “partido do poder”. Por essa razão, o peronismo no interior do país é geralmente mais conservador, e é muito difícil, da perspectiva de Buenos Aires, distinguir entre um governador peronista e um radical (sempre excluindo Buenos Aires devido à importância e singularidade de sua área metropolitana).
Isso não impediu que a competição entre eles gerasse antiperonismo dentro do Partido Radical ao longo dos anos, levando muitos a unir forças primeiro com Macri e agora com Milei. Mas os radicais com território, aqueles que governam, veem La Libertad Avanza da mesma forma: como um concorrente e um perigo em seu próprio distrito. Na Europa, após competir por décadas, a social-democracia e a democracia cristã — centro-esquerda e centro-direita — após o colapso do bipartidarismo devido ao surgimento de novos partidos que ameaçavam — alternadamente — deixá-las em terceiro lugar, acabaram se aliando para competir com o “disruptor”. E pelas mesmas razões, na Argentina, também se pode conjecturar que talvez peronistas e radicais acabem se unindo para formar aquele terceiro movimento histórico tão frequentemente inventado. Primeiro movimento histórico: a UCR no final do século XIX; segundo movimento histórico: o peronismo em meados do século XX; terceiro movimento histórico: uma aliança de ambos no século XXI?
O radical Raúl Alfonsín tentou isso na sacada da Casa Rosada com o peronista Antonio Cafiero em 1987, que meses depois foi eleito governador da província de Buenos Aires. O peronista Duhalde tentou isso com Alfonsín durante a crise de 2002. O peronista Néstor Kirchner tentou isso com o radical Julio Cobos em 2007 e sua ideia de transversalidade. Ninguém conseguiu transformar essas aproximações em algo duradouro ou institucionalizado. Mas talvez a captura simultânea de La Libertad Avanza pelo eleitorado de ambos os partidos e o surgimento de uma nova minoria que os exclui e aspira a uma certa forma de hegemonia acabem unindo-os. Da mesma forma que alguns líderes peronistas e radicais já se uniram, juntando-se à LLA.
O peronismo cordovês, fator na formação das Províncias Unidas, é em si um antegozo desse amálgama, não apenas por seu vice-governador radical, mas também por seu caráter único como partido autônomo e perene do Partido Justicialista, liderado por representantes do “ambacentrismo” há mais de duas décadas. Isso aconteceu quando Néstor Kirchner, natural de Santa Cruz, descobriu que, vencendo na região metropolitana de Buenos Aires, e pouco mais, poderia vencer as eleições nacionais e subjugar os demais distritos, estabelecendo assim a região metropolitana como o partido dominante dentro do próprio peronismo.
Setembro na província de Buenos Aires e outubro em todo o país remodelarão o mapa e marcarão o início de um horizonte de 2027, com ou sem Milei.
O interior da província de Buenos Aires se comporta eleitoralmente de forma mais semelhante às suas vizinhas Córdoba e Santa Fé, mas 70% do voto portenho concentra-se nos dez milhões de habitantes da região metropolitana da capital, o que acaba diluindo quantitativamente o interior portenho. É por isso que ali se repete o fenômeno da união de peronistas e radicais em Somos Buenos Aires, uma aliança do radicalismo, mobilizada principalmente por Facundo Manés (embora este venha a ser candidato a senador pela Capital), juntamente com prefeitos peronistas antikirchneristas e representantes do partido com o qual Juan Scheretti concorreu nas eleições presidenciais de 2023, como o também peronista Florencio Randazzo.
Se o PJ passasse por um processo de envelhecimento, a crise de meia-idade que a UCR já sofreu há um quarto de século, talvez seus principais atores estivessem dispostos a promover seriamente um terceiro movimento histórico se — não menos importante — encontrassem um candidato que entusiasmasse a população.
Quem personificaria esse sentimento: um ex-governador como Schiaretti, que chegaria em 2027 com a mesma idade em que Trump foi eleito no ano passado? Poderiam ser representados por um outsider, como Duran Barba sempre afirma ser mais empolgante para os eleitores? Poderiam ser representados por um jovem governador a quem outros cederiam sua autoridade e os elevariam?
Setembro na província de Buenos Aires e outubro em todo o país remodelarão o mapa e inaugurarão as condições para 2027, com ou sem Milei.
JORGE FONTEVECCHIA ” JORNAL PERFIL” ( ARGENTINA)