TRUMP E A CARTOMANTE

CHARGE DE MIGUEL PAIVA

Sem alternativas, decidi buscar respostas onde a razão não alcança, onde a lógica se curva: nas mãos de uma cartomante.

Os últimos dias têm sido um tormento gélido. Uma inquietação implacável me consome, e o motivo tem nome e sobrenome: Donald Trump. Suas ameaças de taxar produtos brasileiros e a cobiça descarada e predatória por nossas terras raras corroem minha alma, roubam meu sono. É impossível decifrar a mente desse homem; ele opera fora de qualquer lógica, em um abismo de imprevisibilidade. Sem alternativas, decidi buscar respostas onde a razão não alcança, onde a lógica se curva: nas mãos de uma cartomante.

Foi assim que meus passos me levaram ao refúgio de Madame Perséfone. Seu estúdio não é apenas um lugar; é um portal para outro tempo, um convite irrecusável à confissão mais íntima. A penumbra do cômodo é suavemente quebrada por velas tremeluzentes, projetando sombras dançantes que hipnotizam, aprisionam o olhar. Um aroma sutil de incenso – sândalo, lavanda, mirra – flutua no ar, criando uma atmosfera etérea, quase sagrada, onde o véu entre os mundos parece mais tênue.

No centro do palco, uma mesa redonda, coberta por uma rica toalha de veludo bordado, aguarda as revelações que podem selar destinos. Duas cadeiras confortáveis, uma para a sacerdotisa do futuro e outra para mim, são cúmplices silenciosas daquele rito. Nas paredes, tapeçarias com motivos místicos, símbolos astrológicos e prateleiras repletas de cristais, ervas secas e objetos esotéricos reforçam a aura de magia ancestral e conhecimento proibido. Ali, o tempo parece desacelerar até parar, e o mundano se dissolve no enigmático, no presságio.

 Tudo que você precisa saber. Todos os dias, no seu e-mail.

Assine nossa newsletter para não perder os principais fatos e análises do dia.

Madame Perséfone surgiu, imponente, quase etérea, em um vestido esvoaçante de roxos profundos, adornado com bordados intrincados e joias que cintilavam com vida própria à luz bruxuleante das velas. Um lenço elegante cobria sua cabeça, e anéis grandes ornavam seus dedos, cada um contando uma história silenciosa, um segredo ancestral.

— Meu filho, o que o aflige a ponto de buscar os véus do futuro? — sua voz grave e acolhedora ecoou no silêncio, preenchendo o espaço com uma autoridade mística.

Sem rodeios, expus minha aflição, as palavras jorrando como um rio represado: — Madame, estou profundamente preocupado com o futuro do Brasil, diante das sombras ameaçadoras de Trump.

— Vou ver o que as cartas dizem — ela respondeu, com a serenidade de quem já testemunhou a ascensão e queda de impérios.

Escolheu um baralho guardado em uma caixa delicada, embaralhou as cartas com movimentos fluidos, quase rituais, e as espalhou pela mesa. Seu semblante, antes calmo, se fechou em uma preocupação que gelou minha alma.

— Meu filho, está tudo muito nebuloso, uma névoa densa e traiçoeira. Vejo Judas traindo Jesus… não, pera! Deve ser Joaquim Silvério dos Reis traindo Tiradentes. Não, também não é. Enfim, é um sujeito que, de tão obscuro, nem consigo distinguir direito, uma sombra sem forma definida.

Minha ansiedade, já em pico, escalou a patamares insuportáveis: — Madame, o que mais a senhora vê?

— Meu filho — ela respondeu, sua voz agora embargada, carregada de um peso invisível — vejo revolta popular irrefreável, milhões de pessoas famintas caminhando pelas ruas sujas como zumbis, almas perdidas em um purgatório terreno, e muita violência policial, brutal e indiscriminada.

Um calafrio glacial percorreu minha espinha. — A coisa chegou a esse ponto no Brasil? As negociações sobre as tarifas falharam irremediavelmente? Lula caiu? — perguntei, apavorado, à beira do desespero.

— Humm… Não é no Brasil — ela corrigiu, e meu coração disparou como um tambor de guerra. — É nos Estados Unidos. Vejo placas de rua e letreiros de Los Angeles, Nova Iorque e outras cidades tomadas pelo caos absoluto. O comércio está fechado, há barricadas nas ruas e o povo resistindo à repressão com pedras. Parece que estão encurralando os soldados, uma maré humana contra a tirania.

— Quando acontecerá isso? — minha voz mal saiu, aterrorizada, um sussurro de pavor.

— Não dá para dizer ao certo, meu filho. Vou precisar consultar a bola de cristal. Só um momento.

Madame Perséfone abriu uma gaveta. De lá, tirou uma pequena bola reluzente, mas coberta por uma fina camada de poeira – um sinal de que não era usada há tempos. Isso só intensificou minha apreensão, confirmando que a situação era realmente grave, talvez catastrófica.

— Vamos ver o que a bola diz, meu filho — ela murmurou, agora em profunda concentração, sua mente navegando por águas desconhecidas.

Minutos se arrastaram, e o rosto da cartomante foi se contorcendo em uma expressão de gravidade crescente, de terror velado. Não pude mais esperar. — O que vê, Madame? — insisti, minha voz carregada de urgência.

— Meu filho, vou lhe relatar tudo o que vejo: Os Estados Unidos estão em ruínas neste momento, um império em colapso. A revolta popular se estende por todo o país, uma chama incontrolável. Já incendiaram carros, ônibus e até uma composição do metrô de Nova Iorque.

O governo já não sabe o que fazer. Implantou a lei marcial e o toque de recolher, mas parece que não consegue conter a revolta, que cresce como uma avalanche imparável.

— Há uma liderança para esse movimento? — decidi perguntar, buscando um ponto de apoio no abismo.

— Humm… não identifiquei. Ao que parece, a revolta popular explodiu a partir do enorme e insuportável descontentamento popular, uma panela de pressão que explodiu.

Vejo agências bancárias e a sede da emissora Fox sendo incendiadas. Wall Street, o centro financeiro do país, está um caos indescritível: fogo para todo lado.

As pessoas carregam faixas e cartazes protestando contra o desemprego, a falta de mão de obra, direitos trabalhistas e sistema gratuito de saúde. Veja! Eles querem ter um SUS!

Um analista num telejornal reclama que, durante décadas, os Estados Unidos procuraram fomentar guerras mundo afora, esbanjando fortunas em armas, enquanto mantinha seu povo trabalhando sem férias, décimo terceiro, saúde e moradia.

Enquanto isso, a China avançou, melhorando substancialmente a vida de sua população, tirando centenas de milhões do mapa da fome, expandindo seu comércio mundo afora e estabelecendo relações mais horizontais com outros países.

Um presidente dos Estados Unidos, chamado de Trump, percebendo isso, lançou o lema “Make America Great Again” para tentar conter o avanço chinês.

Por isso, impôs tarifas a outras nações e lançou um olhar cobiçoso e implacável sobre as terras raras – o futuro da tecnologia – espalhadas pelo mundo, inclusive no Brasil. Além disso, expulsou os imigrantes, que são a principal força de trabalho do país.

O resultado? Empresas fecharam por falta de mão de obra, e a inflação disparou vertiginosamente, uma espiral incontrolável, devido ao aumento dos preços dos produtos importados, especialmente do Brasil. Num país onde não há os mesmos direitos trabalhistas do Brasil, nem saúde pública gratuita como o SUS, o povo foi lançado às ruas em protesto, uma fúria contida que finalmente explodiu.

Imediatamente, Trump ordenou uma repressão violenta e decretou lei marcial. Milhares foram deportados, presos ou assassinados, mas isso apenas alimentou a revolta, transformando-a em um incêndio incontrolável.

Essa situação foi num crescendo até que o governo se viu acuado, encurralado pela própria tirania.

Paralelamente, as grandes corporações, que perderam fortunas nessa empreitada trumpista, pediram a cabeça do presidente.

Enquanto isso, a China decidiu cobrar a dívida trilionária dos EUA. Sem condições de pagar, o Estado-Maior americano cogitou lançar uma ogiva contra Pequim, mas recuou, pois a Coreia do Norte e a Rússia já estavam apontando suas ogivas para os Estados Unidos, prontas para uma resposta imediata.

Parece que o império está caindo, meu filho. Desmoronando em seus próprios alicerces.

— Sim, Madame, mas quando isso está acontecendo? — perguntei, ainda mais apavorado, a voz quase inaudível.

— Mesmo com a bola de cristal, que costuma ser muito precisa e direta, não consigo especificar a data. Mas não será num futuro distante. Vou tentar essa informação na borra de café.

Madame Perséfone preparou um café delicioso, mas o que eu queria mesmo era saber o que a borra diria sobre o ano em que a derrocada final ocorreu.

— Vamos ler a borra, meu filho — disse Madame com o cenho franzido de preocupação, seus olhos buscando respostas nas profundezas escuras.

— Estranho… não consigo precisar a data. Vou tentar a numerologia.

— Não precisa, Madame. Talvez seja melhor não saber. Como está o Brasil? — perguntei, desviando do terror iminente.

— Humm… vejo um povo pulando carnaval e aparentemente despreocupado. Mas está nebuloso demais. Somente isso. Não consigo ver mais nada.

Atordoado, decidi pagar a consulta a Madame Perséfone. Mas antes de me retirar, arrisquei:

— E Bolsonaro?

— Foi preso — respondeu ela, secamente.

 Satisfeito, retirei-me.

Seria ela uma farsante, tecendo um conto de fadas sombrio? Ou teria me revelado a terrível verdade de um futuro que se aproxima inexoravelmente? A incerteza pairava pesada, mais densa do que a fumaça de incenso em seu estúdio. E, por mais assustadora que fosse a profecia, uma parte de mim sabia: o futuro nem sempre é o que esperamos, mas sim o que construímos. Resta saber se teremos a sabedoria para desviar do abismo que ela vislumbrou, do precipício que se abre à nossa frente.

(inspirado no conto “A Cartomante”, de Machado de Assis)

FERNANDO COELHO ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *