
Embora ainda sejam uma potência econômica, militar e de soft power, os EUA dão sinais de esgotamento da liderança internacional
O século XXI será o século da China em contraste com o “século americano” que marcou o século XX? A partir dessa pergunta, sinólogos como Evandro Carvalho, Daniel Veras e Pedro Stenhagen analisam a abordagem chinesa de cooperação e desenvolvimento sustentável, diferenciando-a da política externa unilateralista e protecionista dos Estados Unidos, especialmente sob a administração de Donald Trump.
No programa Observatório de Geopolítica, do canal TVGGN no Youtube, exibido ao vivo na noite de segunda (28), os especialistas exploram as características da liderança chinesa, focada na multilateralidade e no respeito à soberania, e como essa nova dinâmica impacta as relações internacionais, incluindo a aproximação com países emergentes como o Brasil.
Mediado pelo cientista político Pedro Costa Jr, apresentador da TVGGN, o debate ressaltou as diferenças culturais e políticas que moldam as estratégias de ambas as potências, com a China buscando um futuro multipolar e focado em benefícios mútuos.
Para os debatedores, a China caminha para ser um país de relevância extraordinária no mundo, e o século XXI “será certamente o século chinês”.
O declínio dos EUA e a política externa de Donald Trump
Embora ainda sejam uma potência econômica, militar e de soft power, os americanos estão dando sinais de esgotamento de sua liderança internacional. A política externa dos EUA está irreconhecível em comparação com sua liderança no período após a Segunda Guerra Mundial, e o país frequentemente dando o tiro no pé.
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A abordagem de Trump na política externa foi descrita pelos analistas da TVGGN como “extremamente pouco diplomática”, onde ele primeiro anuncia medidas prejudiciais, até mesmo a aliados, para depois negociar. Isso é visto como uma estratégia para testar a capacidade de resistência de outros governantes e países, exigindo uma manifestação de submissão e rendição antes do diálogo.
Essa postura de Trump, embora possa gerar ganhos econômicos a curto prazo, a longo prazo significa uma “erosão total da sua legitimidade e da sua confiabilidade”, defendeu o autor “China: Tradição e modernidade na governança do País”.
Fatores que impulsionam o declínio do século americano:
• Esgotamento da “liderança pelo exemplo“: Os Estados Unidos estão mostrando sinais de esgotamento de sua liderança internacional e o país frequentemente age de forma prejudicial a si mesmo.
• Alienação do interesse nacional: Lideranças políticas, como Donald Trump, parecem estar agindo mais em benefício de uma “classe política de extrema direita” do que do interesse nacional.
• Política externa autocentrada e protecionista: Postura protecionista desconsidera as regras da OMC e busca ganhos econômicos de curto prazo, que são questionáveis a longo prazo.
• Abordagem diplomática agressiva e desrespeitosa: A “metralhadora tarifária giratória” gera uma “erosão total da legitimidade e da confiabilidade” dos EUA a longo prazo.
• Crise do modelo “Sonho Americano” e do Estado Soberano: O “sonho americano”, que pressupõe que a busca individual pela felicidade levaria ao bem comum, tem fragilizado o indivíduo em uma “sociedade antissocial”. As democracias ocidentais, ao invés de gerar inclusão, estão gerando a exclusão do indivíduo e destruindo a figura do Estado em benefício de “classes dominantes articuladas”.
A ascensão da política chinesa
Já a China, em contraste com os EUA, tem uma política externa que propõe diálogo ao invés de ameaça. O discurso é sempre no sentido de propor um “jogo de cooperação de benefícios mútuos” em vez de um “jogo de soma zero”.
Sua política externa é mais estável, previsível e respeitadora do princípio da igualdade soberana. O foco da China está no desenvolvimento econômico social e na capitalização do seu crescimento econômico sustentado, expansão tecnológica e inovação.
Para os analistas, a China não age por ser “boazinha”, mas porque tem um interesse estratégico em relações de longo prazo e desenvolvimento mútuo. É de seu interesse que outras economias se desenvolvam para que haja mais mercado e um mundo mais seguro e desenvolvido.
Em oposição ao “sonho americano”, o “sonho chinês” pressupõe que a realização do projeto de vida individual está conectada e depende da realização do coletivo e do bem comum. Há uma percepção de que o coletivo é importante e que o Estado deve criar condições para o desenvolvimento coletivo (infraestrutura, educação, saúde). A sociedade chinesa é fortalecida por laços sociais e uma “individualidade expandida” ou “coletividade vital”, ancorada na noção de família.
Enquanto o modelo ocidental, impulsionado por iniciativas individuais, levou a desastres e problemas sociais, a China propõe o fortalecimento do Estado.
Há uma crítica à visão ocidental de que “democracia e capitalismo era dois lados da mesma moeda e socialismo e autoritarismo era dois lados de outra moeda”. O socialismo chinês desmonta essa visão ao provar que mercado e investimento também existem, e que a participação popular pode ser ampliada sem ser um autoritarismo.
Fatores Impulsionando a Ascensão do Século Chinês:
• Relevância e crescimento sustentado: PIB chinês cresceu de 1.2 trilhão de dólares em 2001 para 17 trilhões em 25 anos, com uma média de crescimento de 10% ao ano por boa parte do tempo.
• Liderança de cooperação e multipolaridade: Diferente do “século americano” de hegemonia, o “século chinês” é caracterizado por um século de cooperação e um mundo multipolar.
• Política externa de diálogo e benefícios mútuos: Em contraste com as ameaças dos EUA, a China propõe diálogo onde todos podem ganhar algo, mesmo que alguns ganhem mais.
• Estabilidade, previsibilidade e respeito à soberania: A política externa chinesa é mais estável, previsível e respeita o princípio da igualdade soberana. Isso atrai países em desenvolvimento.
• Foco no desenvolvimento e inovação: A China se concentra no desenvolvimento econômico social e na capitalização de seu crescimento, expansão tecnológica e inovação. Ela conseguiu retirar 850 milhões de pessoas da pobreza e se tornou uma potência tecnológica antes mesmo de ser um país totalmente desenvolvido, sendo um “caso de sucesso inigualável na história da humanidade”.
• O “Sonho Chinês” e o fortalecimento do Estado: O “sonho chinês” conecta a realização do projeto de vida individual à realização do coletivo e do bem comum.
Para os especialistas, Brasil e a China, ao se colocarem a favor dos BRICS, não estão agindo com um postura “antiocidente”, mas sim como defensores de uma organização internacional onde o Estado é uma expressão de um coletivo organizado internamente em defesa da soberania.
Os BRICS não são uma ameaça aos EUA, mas sim um fortalecimento da lógica de um Estado organizado pela sua população, buscando seu projeto de desenvolvimento e respeitando o sistema internacional de estados soberanos. A “elite do capital” que avança globalmente está incomodada com o sistema de estados soberanos.
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REPORTAGEM DO ” OBSERVATÓRIO DE GEOPOLÍTICA” ( BRASIL)