A VIDA DE ANTÔNIO CÂNDIDO EM POÇOS DE CALDAS

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No aniversário de Antônio Cândido, uma crônica lembrando momentos vividos por ele e meu pai em Poços de Caldas. Memórias!

Um amigo me manda uma imagem de crônica de Antônio Cândido, na qual ele menciona uma cena com Oscar Nassif, “meu grande amigo”. E o colega de Tiro de Guerra, Itamar Ricci,  de Poços de Caldas lembra que 24 de julho é dia do aniversário do professor. Faria 107 anos.

Aí, foi inevitável. As lembranças rolaram no tempo e no espaço para a Poços de Caldas dos anos 60. Era 1963, eu, com 13 anos, já frequentava o GGN, Grupo Gente Nova, de liderança cristã, abrigado pelas freiras no Colégio São Domingos. Sabendo da amizade do meu pai com o mestre, os colegas pediram que falassem com ele sobre a possibilidade de uma palestra para o GGN.

Antonio Cândido tinha uma rotina em Poços. No final da tarde passava na Serralheria Americana, na qual o gerente era Chafik Frayha, o melhor amigo dele e de meu pai. Subiam então até a Farmácia Central, Salva Sempre, do meu pai. O velho mantinha um sofá de três lugares bem na frente da farmácia, do lado esquerdo de quem entra. Era para receber os amigos que iam prosear.

Cheguei até o professor, ele perguntou o tema, e eu despachei um tema terrivelmente inócuo: a diferença entre chefia e liderança, que estudávamos nas reuniões do grupo.

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Ele foi, deu a palestra. Aí, nosso contista Murilo de Carvalho pediu que eu entregasse ao professor algumas de suas crônicas. Entreguei. Tempos depois, Murilo veio uma fera, me acusando de ter boicotado suas crônicas. Como assim? O professor devolvera o calhamaço e esqueceu de colocar as observações. E Murilo percebeu que, na frente do calhamaço estava uma crônica menor. Acusou-me de ter trocado a crônica maior pela menor pára boicotá-lo. Nem adiantou dizer que ele me deu o pacote e eu repassei para Antônio Cândido sem sequer abrir.

Anos depois, o ego de Murilo ficaria satisfeito quando conquistou o primeiro lugar no então afamado concurso de contos de Curitiba.

Em 1965 comecei a burilar mais o violão e praticar as primeiras serenatas. E meu pai suigeriu que fossemos fazer serenata para as filhas de Antônio Cândido e suas primas, que moravam no Chalé Procópio, de famílias de São João da Boa Vista.

Silvinha, Lúcia (que depois casou com o historiador Jorge Caldeira), Laura (filha de Antonio Cândido) suportaram nossas primeiras experiências musicais.

Minha segunda experiência com o professor foi em um concurso de contos do Instituto Educacional de Sâo João da Boa Vista. Ele aceitou o convite da dona Adélia, diretora, para ser o jurado. Leu os contos, sem saber da identidade dos autores. E premiou o meu.

Depois, descobriu-se que o segundo lugar era um plágio da revista Seleções e o terceiro de uma outra revista. E dona Adélia resolveu anular o concurso, ante meu protesto.

Pesou nisso uma palestra que organizei na cidade, para a qual convidei minhas duas primas, Rosa Mesquita e Cristina, muito atuantes no movimento estudantil.

Meu conto era meio surrealista e falava em uma casa cuja maçaneta era um soutien. Dona Adélia mandou censurar o sutiã. Na saída do encontro, eu implicado com a censura, cheguei para dona Adélia na frente do povaréu, e pedi:

  • Dona Adélia, não tira o soutien!

Não foi um pedido convenientemente formulado, mas eu tinha um álibi: desde criança já era distraído.

Reencontrei o professor já em São Paulo, na missa de 7o dia de meu pai. De vez em quando visitava-o em seu apartamento. Nas conversas, percebia-se como era pequeno o Brasil do início do século. Antônio Cândido tinha parentesco antigo com os Mesquita, a família era amiga de famílias de São João.

No final dos anos 80, quando me meti em uma guerra infernal contra o então consultor-geral e Ministro da Justiça de Sarney, Saulo Ramos, Antônio Cândido enviou cartas aos jornais em apoio.

Mas o grande reencontro ocorreu nos anos 90. Meu pai tinha morrido, e me deu uma enorme vontade de reconstituir sua vida de jovem, nos tempos de Poços de Caldas dos cassinos e do centro da vida política e artística nacional. Havia boatos, até, de flertes dele com sua conterrânea Libertad Lamarque (ambos nasceram em Rosário, Argentina, no mesmo ano).

Liguei para o professor. Atendeu sua esposa Gilda, que me falou de suas angústias. Antônio Cândido estava em Poços, preparando-se para vender a casa da família. E estava imerso em angústias.

Eu estava enrolado com meus projetos na Agência Dinheiro Vivo. Mas não relutei: avisei em casa que iria para Poços naquele final de semana. E resolvi levar Antonio Franceschi, um executivo do Unibanco, que assessorava na comunicação do banco.

O nome de Franceschi surgiu por acaso. Naquela semana encontrei com ele em algum evento e comentamos sobre Antônio Cândido.

Na viagem, fui comentando com ele como seria bom se houvesse algum projeto em Poços, que permitisse manter uma relação mais duradoura com a cidade.

Chegando, fomos diretos à casa de Antônio Cândido. Ele estava lá com dois filhos de Chafik. Arrasado, dizia:

  • Poços para mim era essa casa e meus amigos Chafik e Oscar. Os dois morreram e agora a família cresceu muito e precisamos vender a casa.

Além disso, queriam comprar uma residência para a empregada que cuidou da casa a vida toda.

Saimos do encontro ansiosos. Sugeri a Franceschi falarmos com José Mindlin, o empresário intelectual que, talvez, aceitasse comprar a casa e fazer uma fundação.

Acontece que Antonio Cândido já estava apalavrado com os Miguel, família que viera de uma cidade próxima a Poços e fizera fortuna com hotelaria.

Eu conhecia bem os Miguel. Um deles comprou uma loja vizinha à Farmácia e conviveu com meu pai nos seus últimos anos de Poços de Caldas.

Antônio Candido oferecera a casa por 60 mil dólares. Combinei uma conversa com Walter Miguel, o irmão mais velho. Começamos a falar da importância de Antonio Cândido e perguntar por quanto toparia revender a casa. A cada menção ao prestígio de Antonio Cândido, mais aumentava o valor da casa. No fim, ele pediu 200 mil dólares.

Depois soubemos que Mário Seguso, o notável italiano criador dos Cristais Cá D´Oro e historiador, chegou a propor 100 mil dólares para Antônio Candido. Mas ele já estava apalavrado com os Miguel. O comentário de Miguel foi interessante:

  • Ele nos deu sua palavra e não volta atrás. É muito parecido com seu pai.

Voltamos para São Paulo e Franceschi escondeu um fato relevante. Já existia o Instituto Moreira Salles e ele era secretário ou coisa parecida.

Chegando a São Paulo, apresentou a proposta a Fernando Moreira Salles, que concordou com a ideia de uma Fundação Antônio Cândido, mas apenas se o professor aceitasse seu nome e mantivesse sua biblioteca.

Tudo isso foi acontecendo sem que eu soubesse. Franceschi era aquele tipo de gerente que escondia as informações para não dividir o mérito.

Acontece que Antônio Cândido não aceitou e Franceschi me ligou pedindo que eu entrasse na jogada.

Liguei para Gilda, que não foi animadora.

  • Cândido está muito desgastado com esse processo de venda da casa e não quer reabrir o episódio de novo.

Perguntei se ajudaria se eu recorresse às filhas. A resposta dela me mostrou o perfil de um pai mineiro:

  • É mais fácil ceder ao apelo do filho de um amigo, do que das filhas.

Enfim, não topou. Mas tempos depois o Instituto adquiriu o Solar Cristiano Osório, o mais imponente de Poços e montou o Instituto Moreira Salles. Antônio Cândido aceitou ser conselheiro.

Nos anos seguintes, nossa convivência foi interessante. Comecei a escrever crônicas aos domingos, na Folha. Periodicamente ia almoçar com Miguel Carvalho Dias, que foi prefeito de Poços no início dos anos 50.

Ele era um fantástico contador de causos picantes. Ai eu escrevia a crônica e o professor me ligava desesperado:

  • Luis, cuidado, porque os bisnetos estão vivo ainda.

Nas visitas a ele, Poços era uma lembrança recorrente. Mencionava seus dois grandes mestres, Edmundo Cardillo, advogado de Poços, e Oliveira Neto, notável intelectual de São João da Boa Vista.

Numa tarde, perguntei para ele de Lucia Andrade, uma fantástica mulher de São João da Boa Vista.

Walther Moreira Salles me contou um episódio. Em visita a cidade, o todo-poderoso Ministro da Justiça Francisco Campos, viu Lucia de soslaio, em uma esquina, e apaixonou-se perdidamente. Pediu para seu Secretário Aloizio Salles conversar com ela. Se o aceitasse, estaria disposto a assinar uma Lei do Divórcio, já que era casado, e com uma senhora que padecia de problemas mentais. Ela não aceitou.

Walter me disse que ela encantara todos os rapazes da região.

  • O senhor também?
  • Eu também, mas ela não quis nada.

Lucia passou a vida trabalhando nas obras de Dom David Picão, bispo progressista que passou por São João e terminou em Santos.

Indaguei de Antonio Cândido se ele também se encantara pelo fascínio de Lucia.

  • Eu também! Mas ela não quis nada. Me vinguei quando ela se candidatou à Faculdade de Filosofia e eu fui a pessoa que a entrevistou.

Puro blague de mineiro. 

Outro caso relevante foi com a poeta sanjoanense Orides Fontela. Eu conheci Orides em situação inusitada. Fazia Tiro de Guerra em Poços e precisei vir a São Paulo para me matricular no vestibular da USP.

Dois amigos, José Roberto da Silva e Murilo de Carvalho, eram estudantes da Faculdade de Direito e foram presos em uma manifestação na faculdade. Aí me sugeriram me hospedar em seu apartamento, na Casa do Estudante da Avenida São João.

Estava dormindo quando bateram forte na porta. Levantei de cueca, sem óculos e com cabelo escovinha do Tiro de Guerra.

Eram Orides e Natan. Este eu já conhecia de Poços de Caldas. Era de Aguaí, meteu-se em encrencas posteriormente e teve que fugir do país com uma bala na perna. Tenho a ligeira impressão que namorou  Dilma Rousseff pois, uma vez, ela me contou que passava férias em Aguaí, onde morava uma tia.

Orides avançou para cima de mim feito uma onça:

  • Milico fia da puta, o que fez com nossos amigos?

Rapidamente balbuciei o nome do Natan, dizendo que nos conhecíamos de Poços. Aí, Natan me reconheceu e Orides se conteve.

Pois ela foi agressiva com o professor. Sabendo de suas necessidades, Antônio Cândido transferiu para ela o dinheiro de um prêmio internacional que recebera. No dia que ele comunicou a ela a doação, saiu do apartamento do professor, passou pelo jardim do prédio e estragou algumas plantas. Mas não perdeu a admiração do professor.

Na última conversa que tivemos, Antônio Cândido disse que escreveria alguma coisa sobre os slogans do comércio de Poços. A família contribuiu com dois: a Farmácia Central, Salva Sempre, e o Doces Mesquita, Coma e Repita.

Antes disso, no início dos anos 2.000 juntei minhas crônicas e lancei o livro “O Menino de São Benedito”. Antônio Cândido me deu a honra de prefaciá-lo. E escreveu sobre o mundo visto de uma cidade do interior, sem as estruturas hierárquicas das grandes cidades. Lá, as pessoas vêem o borracheiro e o prefeito, e analisa a todos de acordo com as virtudes de caráter.

O livro foi finalista do Prêmio Jabuti de 2002. Provavelmente, devido à excelência do prefácio.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

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