O PECADO DA ARROGÂNCIA

A ministra Ana Paula Martins tem transpirado arrogância por todos os poros, mas ainda não conseguiu estabelecer um mínimo laço de confiança com ninguém

Quando as coisas correm bem, uma certa dose de altivez ou até mesmo de arrogância pode ser uma arma preciosa para um político, em especial nos tempos atuais, marcados pelo confronto e a polarização. Ajuda-o a criar uma aura superior, permite-lhe começar a construir uma imagem de ganhador e, pelo caminho, transforma-o em alguém um bocadinho inacessível, mas confiável, que é o mais importante. Ou seja: afirma-se como um líder capaz de enfrentar e vencer desafios. O problema é quando as coisas correm mal…

Desde que chegou ao Governo, a ministra Ana Paula Martins tem transpirado arrogância por todos os poros, mas ainda não conseguiu, uma única vez, estabelecer um mínimo laço de confiança com ninguém – nem com as poderosas corporações do setor nem, o que seria fulcral e urgente, com os utentes que precisam de recorrer a um serviço que tem de ser um dos pilares do nosso Estado social. E em relação a resultados… nem mesmo os seus mais fiéis apoiantes conseguem enumerar algo de significativo ou de relevante para amostra. Nem nada que se aproxime das muitas promessas que tem feito ao longo do tempo, mas que tardam todas em ser cumpridas.

Se há algo a que Ana Paula Martins se tem mantido fiel é ao seu estilo. Só que é o estilo espalha-brasas. Sempre com o comando na mão, como quem pensa que precisa de resolver sozinha todos os problemas, e resolutamente interessada em mostrar-se como uma “mulher de armas”. Começou por “cortar cabeças” nos mais diversos níveis da administração hospitalar, envolveu-se em polémicas estéreis apenas para provar a sua autoridade, mas não conseguiu mudar nada de substantivo naquilo que é mais importante no Serviço Nacional de Saúde. Com o resultado eloquente a que temos assistido: os problemas das urgências multiplicam-se, o INEM só é falado pelas piores razões e, quase todos os dias, repetem-se as sempre eternas queixas sobre a falta de médicos de família, as listas de espera e tudo o mais que vai minando a credibilidade dos serviços e a confiança dos cidadãos no SNS.

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O folhetim INEM é o exemplo mais recente e paradigmático de tudo isto. O serviço de emergência que não pode falhar tem falhado vezes demais. E, com isso, minado a autoridade da ministra, que é vista como o “elo mais fraco” de um Governo que pretendia apresentar-se mais reforçado do que rejuvenescido, depois das eleições.

Pela sua natureza e pela sua missão, o Instituto Nacional de Emergência Médica tem de ser um organismo blindado às querelas políticas, com um funcionamento altamente profissional e entregue aos mais competentes. Se falhar, não há nada para o substituir. Existe para, em grande parte dos casos, possibilitar a resposta rápida e eficiente que separa a vida da morte. Tem de estar preparado para atuar em qualquer circunstância, seguindo protocolos previamente estudados e que dão garantias.

Em novembro, depois dos problemas ocorridos durante uma greve que o Ministério da Saúde negligenciou, Ana Paula Martins anunciou, dramaticamente, que iria passar a dedicar 70% do seu tempo ao INEM, prometendo, portanto, que iria sozinha resolver todos os problemas. Não sabemos se chegou a fazê-lo. Mas descobrimos, isso sim, que depois de mais um concurso atribulado, o serviço de helicópteros de emergência foi entregue a uma empresa que não tem helicópteros nem pilotos. E que, para remendar o problema, o serviço foi entregue à Força Aérea, que só tem um helicóptero certificado para missões noturnas, mas que, devido ao seu tamanho, não pode pousar na maior parte dos heliportos dos hospitais.

Não é preciso ter dons de adivinho para prever que, nas próximas semanas, iremos ter mais e variadas notícias sobre problemas no INEM e urgências fechadas em hospitais. Já é um “clássico” do verão, como sabemos – e a situação só não é pior graças à dedicação e ao empenho de um batalhão anónimo de profissionais de saúde, que insistem em não desistir da sua missão.

Também não é preciso ter grande clarividência para perceber que ninguém, isoladamente, conseguirá resolver os muitos problemas do SNS, alguns deles estruturais, outros criados pelo choque e pelo descontrolo de corporações. Por mais voluntariosa e abnegada que seja, Ana Paula Martins tem de perceber que nunca conseguirá resolver sozinha todas as crises e os problemas da Saúde. Perante os factos, chegou o momento de abandonar a arrogância. E pedir ajuda. De preferência, com emergência!

RUI TAVARES GUEDES ” REVISTA VISÃO” ( PORTUGAL)

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