
CHARGE DE SESSINHA
A imagem da Europa nesta cimeira é a de uma potência que perdeu o respeito pelo seu próprio passado
Em 2003, a Europa opôs-se à invasão do Iraque. Em 2008, a Europa recusou a adesão da Ucrânia e da Geórgia à aliança atlântica proposta pelos Estados Unidos. Agora, em 2025, a Europa satisfez todos os caprichos do presidente dos Estados Unidos na cimeira da Otan, aceitando aumentar os gastos em defesa para cinco por cento do Produto Interno Bruto, o mesmo é dizer que se iniciou uma corrida aos armamentos no continente europeu.
Julgo, no entanto, que o pior não foi o conteúdo, mas a forma. O patético espetáculo de vassalagem marcou a cimeira. O secretário-geral da aliança, esse lamentável político holandês que cumpre obedientemente as ordens dos seus senhores, escreveu assim ao presidente Donald Trump: “A Europa vai pagar à GRANDE e será uma vitória tua”.
Horas depois, o mesmo secretário-geral, agora a propósito dos bombardeamentos americanos ao Irã, dizia numa conferência de imprensa ao lado do presidente americano: “de vez em quando o papá tem de usar uma linguagem forte para os fazer parar”. Immanuel Kant considerava o paternalismo como o regime mais tirânico do mundo, na medida em que trata os seus cidadãos como crianças.
O secretário-geral da Otan acha que o presidente dos Estados Unido é o paizinho do mundo e que os restantes países não passam de crianças a quem é preciso, de vez em quando, mostrar o caminho a seguir. Entre a dignidade e a segurança, a Europa prescindiu da primeira — e nunca terá a segunda, que nunca existirá sem a primeira.
Talvez não haja, na história recente, espetáculo mais revelador do declínio da Europa enquanto ator político. Esta foi a cimeira da “servidão voluntária”, para recuperar o título de um famoso ensaio europeu. O aspecto mais deprimente é o argumento, usado por alguns, de que a bajulação do presidente Trump pode trazer vantagens à Europa. Este argumento soma a estupidez à humilhação, nada mais.
Na verdade, a humilhação só traz mais humilhação. Quem se humilha só pode esperar ser maltratado, não respeitado. Além do mais, este tipo de raciocínio não conhece a cultura americana: acima de tudo, os americanos desprezam a vassalagem. A imagem da Europa nesta cimeira é a de uma potência que perdeu o respeito pelo seu próprio passado.
No final da Primeira Guerra Mundial, Paul Valéry escreveu um pequeno ensaio no qual se perguntava se a Europa, então destroçada pela guerra, conseguiria manter as aparências como “pérola da esfera” ou se estaria condenada a ser um pequeno cabo do continente asiático.

(Foto: Claudio Schwarz/ Unsplash)
Hoje esse dilema geopolítico regressa com maior intensidade — será a Europa um aliado da América com identidade própria, ou será apenas uma testa de ponte americana na Eurásia? Esta é a questão estratégica fundamental. E com todo o respeito pelos que têm agora responsabilidades, a Europa não vai a lado nenhum enquanto a sua política externa e comercial estiver entregue a altos funcionários sem legitimidade política. A Europa burocrática está condenada.
Enquanto escrevo leio uma entrevista do economista alemão Wolfang Munchau. Diz ele: “estarmos a gastar mais dinheiro em defesa significa que somos um bocado estúpidos”. De acordo. Mas é talvez um pouco mais do que estupidez. É uma escolha política que em breve fará regressar ao continente europeu a desconfiança entre potências e a contabilidade de armas que cada um tem.
A França começará a olhar para a Alemanha de outra forma e a Grã-Bretanha olhará para o conjunto europeu com a desconfiança que sempre marcou a tradição da sua política externa. Regressarão os exercícios e cálculos típicos do equilíbrio de poder militar porque quando se fala de rearmamento europeu devemos reconhecer que é o do rearmamento alemão que estamos a falar. Esse é a consequência. E será só uma questão de tempo até começarem todos a olhar por cima do ombro.
Nesta cimeira a Europa apresentou-se como vestígio de si própria — uma potência de outrora cuja “glória abolida” não encontra outra saída que não seja a paranoia de segurança e a aposta em armas. Que tristeza.
P.S. Salvou-se Sanchéz. Que dignidade. Alguns lambe-botas do presidente Trump dizem que a Espanha se deixou isolar. Eu digo que essa solidão foi de uma extraordinária beleza. Olé.
JOSÉ SOCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( PORTUGAL / BRASIL)