A PROPÓSITO DO 80 ANOS DE A BOLA

Nascido no antigo Estado do Rio de Janeiro, na cidade de Resende, Antônio Franco de Oliveira (1906 – 1976), o lendário Neném Prancha, tornou-se o filósofo das praias de Copacabana e treinador das divisões de base do Botafogo. Foi ele quem descobriu, naquelas areias, à altura do Posto 4, no começo da década de 1940, o centroavante Heleno de Freitas (1920 – 1959) e, quase 30 anos depois, o lateral-esquerdo Júnior.

As máximas de Neném Prancha sobre futebol ficaram famosas, divulgadas por dois ilustres jornalistas botafoguenses – o acreano Armando Nogueira (1927 – 2010) e o gaúcho João Saldanha (1917 – 1990). Uma de suas célebres declarações apregoava que o goleiro deve andar sempre com a bola, mesmo quando vai dormir – completando: “Se tiver mulher, dorme abraçado com as duas”. Conheci diversos portugueses, em São Paulo e em Paris, casados ou solteiros, que, amantes do jornal “A Bola”, dormiam, muitas vezes, abraçados com seu exemplar, lendo e relendo as crônicas dos jogos do então superpoderoso Benfica.

O mais popular dos cotidianos de Portugal foi criado em 1945 por um grupo de comunistas, em pleno salazarismo, entre eles, Cândido de Oliveira (1896 – 1958), que, como João Saldanha, era, simultaneamente, jornalista e técnico – chegando a ser treinador do Flamengo em 1950. O querido “A Bola” comemora neste 2025 os 80 anos de fundação – e, para além de ser o campeão de leitura dos diários lusitanos, é uma das publicações esportivas de referência do mundo. Tão prestigiosa quanto o espanhol “Marca”, de Madri, o francês “L’Equipe”, de Paris, o argentino “Olé”, de Buenos Aires, e o italiano “La Gazzetta dello Sport”, de Milão.  

Um dos colunistas mais lidos de “A Bola”, com a seção “Brasil, Brasileiro”, foi meu saudoso amigo Duda Guennes (1937 – 2011) um pernambucano de Recife,  gloriosamente, comunista e benfiquista – embora, deste lado do Atlântico, fosse adepto de dois tradicionais clubes: Náutico e Fluminense. Foi justamente Guennes quem me apresentaria a Eusébio, num domingo à noite, próximo a um ‘inferninho’ lisboeta, em 1977, à Rua da Travessa da Mãe d’Água, no Bairro Alto. O craque estava já no final da carreira e atuava pelo Beira-Mar, de Aveiro, à época na Primeira Divisão do Campeonato Português.

Combinei, informalmente, uma reportagem com ele para o diário “O Globo”, do qual era o correspondente em Madri, porém, infelizmente, nos desencontramos e nunca consegui realizar a entrevista, que seria no formato de “ping-pong”, ou seja, pergunta e resposta. Considero o Pantera Negra, até hoje, o maior jogador lusitano de todos os tempos. “A Bola”, assim como Eusébio, viveu um longo e extraordinário período quando, a partir dos anos 1960, o futebol português deixou de ser praticado com a ‘bola quadrada’, como se ironizava no Rio de Janeiro, e o Benfica passou a ser tão relevante quanto o Real Madrid, do argentino Don Alfredo Di Stefano (1926 – 2014), o Milan, de Gianni Rivera, Trapattoni, Maldini (pai) e dos brasileiros Dino Sani, Altafini e Amarildo, e mesmo o Santos de Pelé e companhia.

O grande apogeu foi na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, quando o selecionado das cinco quinas, treinado pelo luso-carioca Oto Glória (1917 – 1986), conquistou o terceiro lugar e, na fase de grupos, ganhou do Brasil, com Pelé em campo, por 3 a 1, no Goodson Park, o velho estádio do Everton, em Liverpool.  

Nestas oito décadas de história, com a perspicácia de Guennes, no seu “Brasil, Brasileiro”, também “A Bola” difundiu algumas frases do irreverente Neném Prancha – segundo o qual pênalti é uma coisa tão determinante que deveria ser batido pelo próprio presidente do clube. Ou uma outra ainda mais óbvia e inesquecível: o importante é o principal, o resto é secundário.

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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