ECKHOUT FEZ ESCOLA NO RECIFE DE NASSAU

O alemão João Maurício de Nassau (1604 – 1679) foi, sem dúvida, ao longo destes 525 anos, o mais notável de todos os governadores que teve o Nordeste brasileiro. A gestão nassaviana à frente de sua Nieuw Amsterdam, isto é, Nova Amsterdam, o Recife, de 1637 a 1644, em nome da holandesa Companhia das Índias Ocidentais, marca ainda hoje, indelevelmente, a metrópole pernambucana. São referências até os nossos dias suas duas admiráveis pontes – as primeiras a serem erguidas nas Américas. Também são referências os soberbos palácios, como o da Boa Vista e o de Friburgo, e os fabulosos jardins, inclusive, um zoológico, com vários elefantes.

Com espírito elevado e, sobretudo, iluminado, Nassau, nascido na Alemanha, em Dilenburg, no Estado de Hessen, acolheu e deu liberdade religiosa a muitos portugueses judeus que vieram para o Brasil – após escaparem das malditas fogueiras da Santa Inquisição ibérica e se refugiarem em Amsterdam, capital então da neerlandesa e calvinista República das Sete Províncias Unidas, integrada pela Frísia, Groninga, Guéldria, Holanda, Overijssel, Zelândia e Utrecht, atual Reino dos Países Baixos. Nassau permitiria àqueles judeus a construção da primeira sinagoga do Novo Mundo, à Rua dos Judeus, no centro de Recife – restaurada em 2000 e atualmente em funcionamento.

O governador do Nordeste, homem refinado, traria para Pernambuco dois jovens artistas holandeses, Frans Post (1612 – 1680) e Albert Eckhout (1610 – 1665) que reproduziam, magnificamente, o cotidiano da metrópole tropical. Principalmente Eckhout. Seu precoce ‘realismo’, misturando retratos de indígenas, negros escravos, mamelucos, brancos, frutas e vegetações, influenciaria por séculos a pintura brasileira. 

A Semana de Arte Moderna, de 1922, em São Paulo, é, para mim, uma das provas do legado deixado pelo artista batavo – com traços mais livres e sem o tom severo do Renascimento florentino. Dois pintores que emergem em 1922 parecem fortemente inspirados no neerlandês – a paulista Tarsila do Amaral (1886 – 1973) e o carioca Emiliano Di Cavalcanti (1897 – 1976). A realidade em cores intensas de Eckhout tinha algo que ver ainda com o Primitivismo – um movimento presente em todo o País – mesmo na minha família, na qual, Carmen Freaza (foto), uma querida irmã, nada de braçada.

Os registros de Eckhout no Nordeste, entre os atuais estados de Alagoas e Ceará, revelaria aos europeus uma vida completamente desconhecida – que imaginavam um cenário paradisíaco. Causaram estupor quadros que explicitavam a existência de tribos canibalistas – quando, por exemplo, uma indígena, possivelmente, de aldeia tapuia, aparece carregando um balaio de vime, com pedaços de pernas e braços de humanos. Os portugueses que colonizavam o resto do País vetavam sempre a difusão dos costumes dos povos nativos e de mapas dos territórios. O temor eram as invasões estrangeiras. Muitas das obras de Eckhout, bem como de Post, acabaram sendo negociadas, anos depois, pelo próprio Nassau, com a Dinamarca e a Polônia, para saldar dívidas de outras guerras. Boa parte do acervo nordestino de Eckhout encontra-se na capital dinamarquesa Copenhague.

A escola dos pintores flamengos marcaria desde o século XVII, não só o Brasil, mas, igualmente, a Europa, como sabemos, com o extraordinário Rembrandt, um dos mais importantes artistas de todos os tempos – considerado, justamente, o mestre do barroco neerlandês. Já Nassau, passaria à história, nos Países Baixos, como “De Braziliaan“, ou seja, “O Brasileiro”, e a sua residência em Haia, a Maurithuis, a Casa de Maurício, é um museu dedicado aos objetos levados daqui pelo alemão, no seu retorno ao Velho Mundo.     

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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