
CHARGE DE AROEIRA ” BLOG BRASIL 247″
A expressão “nova ordem mundial” foi amplamente utilizada em diferentes contextos durante o século XX, mas ganhou um novo significado nos anos 90, após a Guerra Fria, quando o então presidente norte-americano George H. Bush anunciou o início de uma nova fase de cooperação internacional e de liberalização política e económica. A expressão rapidamente passou a ser utilizada pelos teóricos da conspiração e por movimentos radicais que se opunham à globalização económica e a instituições multilaterais como a ONU, onde viam as impressões digitais do anti-Cristo. Porém, essa nova ordem mundial nascida da vitória do Ocidente sobre o comunismo soviético, que permitiu o surgimento de um poderoso processo de globalização que retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza e abriu caminho ao surgimento de uma nova super-potência, a China, capaz de rivalizar com os EUA, poderá ter chegado ao fim esta semana, com o anúncio de tarifas aduaneiras esmagadoras por parte da administração Trump. Nada voltará a ser como antes e vamos assistir à emergência de um mundo com três grandes blocos económicos e geopolíticos, que por vezes serão aliados entre si, outras serão rivais e, em alguns casos, se as coisas correrem mal, poderão mesmo tornar-se inimigos. Esses blocos serão o das Américas, liderado pelos EUA; o europeu, organizado em torno da UE; e, finalmente, o chinês, que tem acesso às gigantescas reservas de matérias primas e de energia da Rússia. À volta destes blocos gravitarão outras potências que procurarão posicionar-se consoante os respetivos interesses nacionais, como o Reino Unido, o Canadá, a Índia, o Brasil e o Japão.
Neste contexto, o que pode fazer um país como Portugal, um pequeno estado com uma economia aberta ao mundo? Como pode sobreviver como estado soberano, nesta nova era em que parece imperar a lei do mais forte? Como pode defender a sua Zona Económica Exclusiva, que tem elevado potencial a nível de recursos minerais que poderão ser cobiçados por potências maiores? As respostas a estas questões poderão ser procuradas nos nossos quase 900 anos de História. Muitas coisas mudaram ao longo dos séculos, mas a geografia continua a ser a mesma, bem como a relação de forças face às grandes potências.
Em primeiro lugar, as alianças serão decisivas. Ao longo da sua existência, Portugal sempre procurou manter boas relações com a potência marítima dominante, como forma de contrariar a hegemonia das potências continentais e de preservar o nosso império ultramarino. No atual momento, isto significa aprofundar a nossa integração na União Europeia, nomeadamente no domínio da Defesa, mas ao mesmo tempo manter a aliança com os Estados Unidos e com o Reino Unido, juntamente com uma relação cordial com a China, que podemos justificar perante os nossos aliados com um historial de cinco séculos que não podem ser ignorados. Em simultâneo, devemos potenciar as relações com o Brasil e os outros países lusófonos.
Em segundo lugar, o caminho tem de passar por uma capacidade de dissuasão eficaz, do fraco ao forte, que torne claro a quem quiser colocar em causa a soberania portuguesa que o nosso país tem capacidade para tornar demasiado elevado o custo de uma eventual incursão no seu espaço marítimo. Os submarinos cuja compra foi em tempos tão criticada, serão hoje o nosso principal meio de dissuasão. Mas serão suficientes?
FELIPE ALVES ” DIÁRIO DE NOTÍCIAS” ( PORTUGAL)