
O que está por trás da decisão oficial de impedir que a holding da Magnetto assuma o controle da Telefónica? A raiva presidencial que desencadeou o conflito. Como o conflito interno Caputo-Karina impacta.
Qual é o limite entre a vida privada e a vida pública de um político? Até que ponto um influencia o outro? Até que ponto isso explica? Essas questões fazem parte de um antigo debate entre jornalistas e analistas. As opiniões nem sempre coincidem e nunca houve consenso nessa longa discussão. Talvez uma das muitas inovações que Javier Milei trouxe também esteja nesta área. Se a história do governo for verdadeira, o avanço do partido no poder contra o Clarín seria motivado por um aspecto muito característico da personalidade do presidente: suas birras incontroláveis, uma máquina de instabilidade que o caracteriza desde a infância e que, quando decola, varre tudo em seu caminho.
Segundo o relato de um dos homens agora acusados de torpedear a fusão entre a Telecom e a Telefónica, a empresa que o Grupo adquiriu — pelo menos por enquanto — seu telefone tocou na manhã de segunda-feira, 24 de fevereiro. Era Santiago Caputo. Do outro lado da linha, o conselheiro todo-terreno informou-lhe que as hostilidades contra o império de Héctor Magnetto tinham de começar, uma vez que “Javier tinha ficado realmente acalorado”. Horas depois, o autoproclamado “Mágico do Kremlin” postou uma imagem em sua conta paralela no “X” com a bandeira “Clarín Lies”.ANÚNCIO

A pessoa para quem ele ligou não ousou perguntar os motivos da fúria do libertário. Embora mais tarde, à medida que a disputa avançava, ela soube que, além do fato de que o descontentamento de Milei com o Clarín vinha crescendo há algum tempo, havia dois fatos específicos que haviam desencadeado o escândalo: um seria um artigo de Marcelo Bonelli, jornalista que o presidente tem como um de seus alvos favoritos, e outro, ainda mais intrincado, apontava para o profundo desgosto que Karina Milei havia causado a uma foto que o jornal havia publicado no domingo, dia 16, durante um passeio de campanha pela Capital Federal, dois dias depois do Criptogate, na qual ela parecia pouco atraente. E isso, ao que parece, foi o suficiente para que Milei colocasse em risco a maior operação monetária do país desde que assumiu o poder em Rivadavia, no valor de US$ 1,245 bilhão.
A história parece, a priori, louca. Alguém de quem dependem 45 milhões de argentinos poderia impedir uma delicada manobra financeira, na qual centenas de empregos estão em jogo, por algo que parece um capricho? Você está disposto a entrar em uma guerra eleitoral com um poderoso grupo de mídia (e, portanto, político) por causa de um artigo crítico e uma foto danificada?

O partido no poder responderia categoricamente que não. Ele diria que, conforme explicou em nota, suas preocupações com essa novidade no mundo das telecomunicações decorrem do fato de que, se a fusão de fato se concretizar, “significaria uma concentração de 61% no mercado de telefonia móvel, 69% na telefonia fixa; e, no que se refere ao serviço de internet residencial, em algumas áreas do país a concentração pode chegar a 80%”. O que é chamado, em crioulo, de monopólio, algo que a legislação local proíbe e que Milei antes defendia com unhas e dentes.
Embora pareça irreal, este veículo sabe em primeira mão até que ponto as tensões com este governo podem aumentar se o presidente assim desejar. Em abril do ano passado, o NOTICIAS publicou uma capa onde revelava que existem apenas quatro cães na Quinta de Olivos (e que o quinto, com quem o libertário afirma brincar todos os dias, existe apenas na sua imaginação). Essa informação desencadeou, como disse um alto funcionário nacional que tentou impedir sua publicação, uma “guerra” por parte do governo. Hoje, a PERFIL tem quatro ações judiciais com a administração por vários tipos de ameaças e discriminação.

É provável que, como sempre acontece neste país do fim do mundo, haja um fundo de verdade em cada versão. Que Milei esteja irritada por alguma questão menor, que o Clarín esteja diante da suculenta possibilidade de ter um lugar mais que proeminente no mundo das telecomunicações e que tudo isso seja apenas a superfície de uma relação mais complexa entre um governo e o principal grupo de mídia do país.
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Negócios
Era de conhecimento geral no mundo dos negócios que a Telefónica, empresa listada na Bolsa de Valores de Nova York e cujo principal acionista é o governo espanhol, há muito queria deixar o país. Em linha com o que vem acontecendo no mundo desde a pandemia, grandes multinacionais estão se retirando de países em desenvolvimento para concentrar seus portfólios em poucos locais. Na Argentina, isso aconteceu nos últimos anos com Procter & Gamble, Nike e Zara, para citar apenas algumas marcas notáveis. Essas empresas geralmente vendem seus ativos para um comprador local. Este foi o caso da Telefónica. Desde 2019, a empresa alienou a maioria de suas subsidiárias na América Latina — enquanto busca se concentrar na Espanha, Alemanha, Brasil e Reino Unido — como parte de um negócio de telecomunicações que está cada vez mais perdendo espaço diante dos avanços tecnológicos.

O Grupo Telecom, holding empresarial detida em 40% pelo Fundo Fintech, do mexicano David Martínez, em 40% pelo Grupo Clarín, por meio da Cablevisión Holding, e em 11% pelo Estado, por meio do Fundo de Garantia de Sustentabilidade (FGS) da ANSES (Agência Nacional de Segurança), adquiriu a Telefónica. Isso aconteceu após o desembolso de US$ 1,245 bilhão, graças a um complexo processo de engenharia que incluiu financiamento do BBVA, Santander, ICBC e Deutsche Bank (segundo a PERFIL, 90% do valor da compra veio dessa operação).
Foi assim que surgiu essa coisa que o Governo suspeita ser um monopólio. Segundo dados do pesquisador do Conicet, Agustín Espada, a Telefónica conta com 2.600.000 clientes de telefonia fixa (38% do mercado); 16.600.000 linhas de telefonia móvel (27% do mercado); e 1.300.000 clientes residenciais de banda larga fixa (12% do mercado), que se somariam aos da Telecom: 2.900.000 linhas telefônicas fixas (42% do mercado); 21 milhões de linhas de telefonia móvel (33,6% do mercado); 3.900.000 clientes de internet residencial (36% do mercado); e 3.300.000 clientes de TV paga (37% do mercado).

Argumentos
A Telecom se apoia em dois fatores para afirmar que, ao contrário do que afirma o governo, esse império não é ilegal: a presença de sua concorrente, a Claro (que, apesar de deter 39% do mercado de telefonia móvel, não tem presença em outros setores de telecomunicações) e o crescimento de Elon Musk, a quem o presidente chama de amigo. A Starlink, sua empresa de internet via satélite, já começou a operar no país, alcançando áreas remotas a um preço mais barato. Contudo, por enquanto sua inserção é mais que marginal.
A Telecom garantiu que, graças a esta aquisição, poderá investir na melhoria da sua rede de fibra óptica e avançar no desenvolvimento da sua rede 5G. Essa é a versão oficial. Abaixo, no mundo dos negócios, há outros. Uma delas é que o grande interesse de Héctor Magnetto não era ver a Claro, sua concorrente, crescer, nem ver nascer outra empresa neste mundo, principalmente se tivesse alguma ligação com o Governo, como é o caso de José Luis Manzano ou do Grupo Werthein. No boato empresarial, eles juram que o czar da mídia fez a compra sem realizar a “due diligence”, já que o processo conhecido nesse tipo de negócio envolve a revisão de todos os ativos de uma empresa antes de adquiri-la. Será assim? Os tempos eram difíceis? Isso parece verdade para a Telefónica. Um dos atores restantes, que ainda está fervendo de raiva, jura que os espanhóis de alguma forma inclinaram o jogo a favor do Grupo. Poderia ser por causa da reação negativa do “grande jornal argentino”, que pressentiu que uma guerra política e jurídica poderia eclodir? A verdade é que a Telefónica, após a venda, encerrou sua aventura na Argentina. Tudo o que acontecer daqui para frente será um problema para seus novos donos.

Futuro
“Há uma ordem para ir, morrer e trabalhar rápido”, dizem os técnicos do governo que agora têm que continuar a batalha, que respondem às ordens de Caputo. O assunto foi repassado à Comissão Nacional de Defesa da Concorrência (CNCD) — cujo presidente, Alexis Pirchio, renunciou em 15 de março, em meio à competição — e à Agência Nacional de Comunicações (ENACOM). A guerra de lances durará pelo menos seis meses, prazo estabelecido pelo governo para avaliar a legalidade da fusão, embora todas as partes envolvidas esperem que dure mais. A Telecom continua otimista, citando a recente aquisição do canal esportivo ESPN pela Disney (que já era dona de todos os três canais Fox Sports) em 2020 como um precedente nesse sentido.
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O governo, mesmo mostrando os dentes contra a faca, não parece muito otimista. Eles dizem que, na melhor das hipóteses, após o prazo expirar, eles têm duas jogadas. Uma delas é que a ENACOM force a Telecom a devolver parte do “espectro de rádio” — o conjunto de frequências que permite a operação das telecomunicações. Isso aconteceria sem nenhum dano à empresa, além da perda de participação de mercado. Outra é que a CNCD obriga as Telecom a liberarem algumas áreas do mercado. De qualquer forma, não seria uma derrota muito grave para o Grupo.
É impressionante, porque quase parece que, enquanto mostra os dentes, o governo busca um acordo. Poderia ser parte de uma tática? Existem brechas legais que impedem uma empresa de concentrar uma parcela tão grande do mercado? O final permanece em aberto por enquanto, especialmente devido a um fator: Javier Milei é sempre difícil de prever.

Labirinto
“Eles fazem parte da casta e são afetados. Eles também estão muito chateados por perder a publicidade oficial. Eles estão operando em capacidade máxima; eles veem a continuidade de seus negócios em risco.” A frase é de Javier Milei e é muito anterior a essa escalada com o Clarín. É março de 2024, quando seu governo estava apenas começando. Desde então, ele cruzou o caminho deles diversas vezes, em bilhetes e nas redes sociais. Em 2 de março deste ano, ele deu mais um passo. Ele postou um tuíte intitulado “Clarín, o grande golpe argentino”, acusando-os de “assediar o governo com mentiras” porque querem “abusar de uma posição dominante no mundo das telecomunicações”. O presidente também disse que eles estavam “acostumados” a agir dessa maneira e criticou Magnetto nominalmente. A publicação continua fixada em sua conta até o momento, marcando a segunda vez que ele fixa um tuíte — o primeiro promovendo $Pound — desde que assumiu o cargo.
Tudo isso acontece apesar de a linha editorial do Grupo ter sido, no mínimo, amigável. É por isso — e porque Milei sempre defendeu monopólios, mesmo como chefe de Estado — que sua busca para fazer do Clarín um inimigo é impressionante. Talvez haja algo mais profundo: o libertário, movido pela convicção de alguém que se acredita literalmente escolhido por Deus, só consegue pensar no jornalismo como um repetidor de suas ideias e argumentos, e não tolera nem a menor crítica da imprensa. Talvez haja algo mais profundo em jogo: o intrincado jogo de política e negócios em um ano eleitoral. De qualquer forma, este é um cabo de guerra delicado. E Milei não é conhecida por sua paciência.
JUAN LUIS GONZALES ” REVISTA NOTÍCIAS” ( ARGENTINA)