
Sob bandeira “American First” e de protecionismo republicano, as mesmas medidas de hoje já foram aplicadas no passado recente. E a história mostrou os resultados: a Grande Depressão e Segunda Guerra Mundial
“América em Primeiro Lugar” é a bandeira do presidente Donald Trump para emplacar o que vem sendo uma política tarifária devastadora, a nível mundial, com o aumento das taxas das importações, sob a justificativa de proteger o comércio e empresas norte-americanas. O que se vê, contudo, é um ‘déjà-vu’ de uma história até bem recente que se revelou uma verdadeira catástrofe na política econômica dos Estados Unidos entre 1920 e 1930.
Trata-se da Lei Smoot-Hawley, um grande aumento tarifário que se assemelha, em muito, aos decretos atuais de Trump contra as importações internacionais. Assim como a bandeira “American First”, as tarifas Smoot-Hawley buscavam proteger, na teoria, o setor agrícola dos EUA da concorrência internacional, profundamente endividado no final da década de 1920.
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Para além da contradição de as medidas protecionistas serem opostas à retórica do livre comércio defendida pelos trumpistas e Republicanos, a lei levantada pelos republicanos Reed Smoot, um senador de Utah, e Willis C. Hawley, um deputado de Oregon, aumentava as tarifas – já altas – sobre os produtos estrangeiros.

Segundo os pesquisadores Thomas Gift e Michael Plouffe, doutores em ciência política da College London, em artigo para a Universidade, à época, mais de 1 mil economistas fizeram uma petição ao presidente Herbert Hoover para impedir a lei, mas ela foi aprovada, levando a um imposto de quase 40% sobre 20 mil tipos de bens importados pelos EUA.
As consequências em números
As consequências foram imediatas: o declínio dramático do comércio dos EUA com outros países, sobretudo aqueles que responderam com retaliação e uma piora expressiva da economia norte-americana, impulsionando a Grande Depressão.
Em números, estimativas da National Bureau of Economic Research (NBER) apontam que a soma de todas as importações dos Estados Unidos, após a lei, despencaram quase pela metade.
Douglas A. Irwin, pesquisador economista de referência e autor de “A Grande Depressão”, “Livre Comércio sob Fogo”, “Propagando o protecionismo: a lei Smoot-Hawley” e outras icônicas obras sobre o tema, expôs que os aumentos das taxas naquele período pelos EUA foram responsáveis, diretamente, pelo declínio de 25% do comércio mundial e, indiretamente, estabeleceu fatores econômicos que levaram à Segunda Guerra Mundial.
Em seus estudos, Irwin aponta como a Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930 teve consequências além da economia dos EUA, levando à queda econômica global e ao agravamento da Grande Depressão.
Somente entre 1929 e 1932, a lei levou a uma redução de 30% nos volumes mundiais de importação e exportação e, ao mesmo tempo, uma contração de 40% em exportações e importações dos Estados Unidos, como consequência da lei e das retaliações impostas pelos países, incluindo o Canadá, Europa e Austrália.
Como era de se esperar, a contração econômica levou ao aumento acentuado do desemprego no país e na economia mundial, dificultando ainda mais a recuperação dos mesmos, apontaram Irwin e Jakob B. Madsen – outro economista que previu a bolha imobiliária de 2006 e a crise financeira global – no estudo “Trade Barriers and the Collapse of World Trade During the Great Depression”.
Bloqueando cooperações internacionais
Os economistas mostram que além do próprio caos econômico instalado, a Lei Smoot-Hawley e os aumentos das tarifas dos EUA à época prejudicaram a cooperação internacional e aumento do nacionalismo econômico, dificultando políticas coordenadas para enfrentar as crises, prolongando a Grande Depressão e atrasando as recuperações das economias antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Nas análises recentes, Thomas Gift e Michael Plouffe também traçam o paralelo daquele fenômeno das décadas de 1920 e 1930, nas medidas “protecionistas” dos Republicanos, com as atuais decisões tomadas por Trump. A bandeira “America First” é uma repetição de como usada naqueles anos para a defesa das políticas econômicas domésticas e a aplicação de altas tarifas.
No artigo para a UCL, os pesquisadores recomendam o mandatário norte-americano “jogar o dicionário fora e pegar um livro de história” para aprender os efeitos que a história recente demarcou com medidas similares.
Abaixo, os artigos consultados para esta publicação:
- The Hawley- Smoot Tariff and the Great Depression, 1928-1932, Douglas A. Irwin
- Protectionism in the Interwar Period, Office of The Historian
- The slide to Protectionism in The Great Depression: Who succumbed and why? Barry Eichengreen e Douglas A. Irwin
- The US tried high tariffs and ‘America first’ policies in the 1930s, UCL
- Trade Policy Disaster, Lessons from the 1930s, Douglas A. Irwin
- The Smoot-Hawley Tariff: A Quantutative Assessment, Douglas A. Irwin
- Historical Aspects of US Trade Policy, National Bureau of Economic Research (NBER)
- The Roots of Protectionism in the Great Depression, National Bureau of Economic Research (NBER)
- What was the overall impact of the Smoot-Hawley Tariff Act of 1930? Varun Jhamvar
- The Political Economy of the Smoot-Hawley Tariff, NBER Working Paper No. w2001
- Smoot-Hawley Tariff Act, The Editors of Encyclopedia Britannica
- Decline in International Trade, Lumen Learning
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PATRICIA FAERMANN ” JORNAL GGN” ( BRASIL)