COMO TRUMP REPETE OS ERROS DE 1929

Sob bandeira “American First” e de protecionismo republicano, as mesmas medidas de hoje já foram aplicadas no passado recente. E a história mostrou os resultados: a Grande Depressão e Segunda Guerra Mundial

“América em Primeiro Lugar” é a bandeira do presidente Donald Trump para emplacar o que vem sendo uma política tarifária devastadora, a nível mundial, com o aumento das taxas das importações, sob a justificativa de proteger o comércio e empresas norte-americanas. O que se vê, contudo, é um ‘déjà-vu’ de uma história até bem recente que se revelou uma verdadeira catástrofe na política econômica dos Estados Unidos entre 1920 e 1930.

Trata-se da Lei Smoot-Hawley, um grande aumento tarifário que se assemelha, em muito, aos decretos atuais de Trump contra as importações internacionais. Assim como a bandeira “American First”, as tarifas Smoot-Hawley buscavam proteger, na teoria, o setor agrícola dos EUA da concorrência internacional, profundamente endividado no final da década de 1920.

 Tudo que você precisa saber. Todos os dias, no seu e-mail.

Assine nossa newsletter para não perder os principais fatos e análises do dia.

Para além da contradição de as medidas protecionistas serem opostas à retórica do livre comércio defendida pelos trumpistas e Republicanos, a lei levantada pelos republicanos Reed Smoot, um senador de Utah, e Willis C. Hawley, um deputado de Oregon, aumentava as tarifas – já altas – sobre os produtos estrangeiros.

O senador Reed Smoot e o deputado Willis C. Hawley no Capitólio em dezembro de 1929. A Lei de Tarifas Smoot-Hawley de 1930 impôs tarifas elevadas sobre produtos importados, desencadeando uma guerra comercial que fez com que as exportações americanas despencassem – Foto: Biblioteca do Congresso

Segundo os pesquisadores Thomas Gift e Michael Plouffe, doutores em ciência política da College London, em artigo para a Universidade, à época, mais de 1 mil economistas fizeram uma petição ao presidente Herbert Hoover para impedir a lei, mas ela foi aprovada, levando a um imposto de quase 40% sobre 20 mil tipos de bens importados pelos EUA.

As consequências em números

As consequências foram imediatas: o declínio dramático do comércio dos EUA com outros países, sobretudo aqueles que responderam com retaliação e uma piora expressiva da economia norte-americana, impulsionando a Grande Depressão.

Em números, estimativas da National Bureau of Economic Research (NBER) apontam que a soma de todas as importações dos Estados Unidos, após a lei, despencaram quase pela metade.

Douglas A. Irwin, pesquisador economista de referência e autor de “A Grande Depressão”, “Livre Comércio sob Fogo”, “Propagando o protecionismo: a lei Smoot-Hawley” e outras icônicas obras sobre o tema, expôs que os aumentos das taxas naquele período pelos EUA foram responsáveis, diretamente, pelo declínio de 25% do comércio mundial e, indiretamente, estabeleceu fatores econômicos que levaram à Segunda Guerra Mundial.

Em seus estudos, Irwin aponta como a Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930 teve consequências além da economia dos EUA, levando à queda econômica global e ao agravamento da Grande Depressão.

Somente entre 1929 e 1932, a lei levou a uma redução de 30% nos volumes mundiais de importação e exportação e, ao mesmo tempo, uma contração de 40% em exportações e importações dos Estados Unidos, como consequência da lei e das retaliações impostas pelos países, incluindo o Canadá, Europa e Austrália.

Como era de se esperar, a contração econômica levou ao aumento acentuado do desemprego no país e na economia mundial, dificultando ainda mais a recuperação dos mesmos, apontaram Irwin e Jakob B. Madsen – outro economista que previu a bolha imobiliária de 2006 e a crise financeira global – no estudo “Trade Barriers and the Collapse of World Trade During the Great Depression”.

Bloqueando cooperações internacionais

Os economistas mostram que além do próprio caos econômico instalado, a Lei Smoot-Hawley e os aumentos das tarifas dos EUA à época prejudicaram a cooperação internacional e aumento do nacionalismo econômico, dificultando políticas coordenadas para enfrentar as crises, prolongando a Grande Depressão e atrasando as recuperações das economias antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

Nas análises recentes, Thomas Gift e Michael Plouffe também traçam o paralelo daquele fenômeno das décadas de 1920 e 1930, nas medidas “protecionistas” dos Republicanos, com as atuais decisões tomadas por Trump. A bandeira “America First” é uma repetição de como usada naqueles anos para a defesa das políticas econômicas domésticas e a aplicação de altas tarifas.

No artigo para a UCL, os pesquisadores recomendam o mandatário norte-americano “jogar o dicionário fora e pegar um livro de história” para aprender os efeitos que a história recente demarcou com medidas similares.


Abaixo, os artigos consultados para esta publicação:

Todos os direitos reservados © – Jornal GGN 2021 – Desenvolvido por Evercode

PATRICIA FAERMANN ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *