
CHARGE DE AROEIRA ” BLOG BRASIL 247″
Peça 1 – os dois ciclos de financeirização
Quem levou meu livro “Os Cabeças de Planilha”, de 22 anos atrás, lembra-se do paralelo que tracei entre dois períodos: o da segunda metade do século 19 e do século 20.
Nos dois períodos houve a seguinte dinâmica:
- Grandes descobertas tecnológicas abrindo novas oportunidades para o capital financeiro.
- Capital financeiro impondo o livre fluxo de capitais, valendo-se da influência dos “financistas” em seus respectivos países.
- O capital financeiro apropriando-se das riquezas nacionais, em parceria com os capitais financeiros locais, e agravando a disparidade de renda.
- Uma revolta da opinião pública contra o Estado e contra o modelo de democracia norte-americano, provocando a ascensão do fascismo e do comunismo.
- Uma grande crise global, levando à Segunda Guerra Mundial e à substituição da hegemonia britânica pela norte-americana.
Peça 2 – o que foi a grande depressão
A corrida comercial protecionista foi a causadora da grande depressão de 1929. Com a ajuda da Inteligência Artificial:
Contexto Pré-1929: Protecionismo e Superprodução
1. Pós-Primeira Guerra Mundial (1918-1930):
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– Os EUA emergiram como a maior potência industrial, enquanto a Europa estava devastada pela guerra.
– Os países europeus dependiam de empréstimos americanos e importações, mas, na década de 1920, começaram a recuperar suas indústrias, aumentando a concorrência.
– Os EUA produziam em excesso (especialmente agrícolas e industriais), mas o mercado interno e externo não absorvia toda a produção.
2. Tarifas Protecionistas Iniciais:
– Os EUA já tinham políticas protecionistas, como a Tarifa Fordney-McCumber (1922), que aumentava impostos sobre importações para proteger indústrias nacionais.
– Isso dificultava que outros países exportassem para os EUA, reduzindo sua capacidade de obter dólares para pagar dívidas de guerra.
O Gatilho: A Lei Smoot-Hawley (1930)
– Em junho de 1930, o Congresso dos EUA aprovou a Tarifa Smoot-Hawley, elevando impostos sobre mais de 20.000 produtos importados (alguns chegavam a 60% de taxa).
– Objetivo declarado: Proteger fazendeiros e indústrias americanas da concorrência estrangeira após a quebra da bolsa em 1929.
Efeito real:
– Retaliação global: Países como Canadá, Reino Unido, Alemanha e França impuseram tarifas semelhantes contra produtos americanos.
– Queda do comércio mundial: Entre 1929 e 1933, o comércio internacional caiu 66% em valor.
– Colapso de economias exportadoras: Países dependentes de exportações (como Argentina e Brasil) sofreram com a queda de demanda.
Consequências para a Crise de 1929
1. Agravamento da Depressão:
– Com menos comércio, empresas fecharam, desemprego disparou (atingindo 25% nos EUA), e a produção industrial encolheu.
– Bancos quebraram devido a empréstimos não pagos por empresas e fazendeiros.
2. Isolamento Econômico:
– O protecionismo criou um ciclo vicioso: menos comércio → menos crescimento → mais protecionismo.
– Países adotaram políticas de “empobrecer o vizinho” (*beggar-thy-neighbor*), piorando a crise global.
3. Fim do Padrão-Ouro:
– Muitas nações abandonaram o padrão-ouro para desvalorizar suas moedas e ganhar vantagem comercial, gerando instabilidade financeira.
Exemplo Prático: EUA vs. Europa
– Antes do protecionismo: A Alemanha exportava manufaturados para os EUA e usava os dólares para pagar dívidas de guerra.
– Após Smoot-Hawley: A Alemanha não conseguia exportar, entrou em crise hiperinflacionária e deixou de pagar reparações, afetando toda a economia global.
Legado
– O fracasso do protecionismo nos anos 1930 levou, após a Segunda Guerra Mundial, à criação do GATT (1947) e depois da OMC, para promover livre comércio e evitar guerras comerciais.
Medidas de recuperação
▫ Conferências internacionais foram realizadas para estabilizar o comércio e a economia global.
▫ Acordos para reduzir tarifas e promover a cooperação multilateral foram discutidos.
Políticas Domésticas de Recuperação
▫ O New Deal, implementado por Franklin D. Roosevelt, incluiu medidas para estimular a economia interna.
▫ Programas de obras públicas e reformas financeiras visaram revitalizar o mercado interno e criar empregos.
Passo 2 – a nova Lei Smoot-Hawley
Principais pontos do anúncio:
- Tarifa básica de 10%: Será aplicada uma tarifa mínima de 10% sobre todas as importações para os EUA, com início em 5 de abril de 2025. The White House
- Tarifas recíprocas mais altas: A partir de 9 de abril de 2025, países com os quais os EUA possuem déficits comerciais significativos enfrentarão tarifas adicionais. Por exemplo:
- Brasil: 10%
A União Europeia enfrentará tarifas de 20%, a China de 34% e o Reino Unido apenas a taxa básica de 10%. No entanto, Canadá e México ficaram isentos devido a acordos comerciais existentes. Trump classificou as tarifas como “recíprocas” e prometeu que elas inaugurariam uma “era dourada” para os EUA.
Peça 3 – o caos no comércio mundial
Em 2024, os Estados Unidos registraram déficits comerciais significativos com diversos países. Os principais déficits foram:
- China: aproximadamente $279 bilhões, com importações focadas em vestuário, maquinário e eletrônicos.
- México: cerca de $152 bilhões, principalmente em veículos e autopeças.
- Vietnã: aproximadamente $104 bilhões, incluindo importações de máquinas, aparelhos mecânicos, têxteis e calçados.
- Alemanha: cerca de $83 bilhões, com destaque para autopeças, veículos, medicamentos e maquinário.
- Irlanda: aproximadamente $87 bilhões, com importações significativas de produtos farmacêuticos e químicos.
- Japão: cerca de $69 bilhões, principalmente em veículos e suprimentos industriais.
- Canadá: aproximadamente $63 bilhões, com importações de petróleo bruto e gás natural.
- Taiwan: cerca de $74 bilhões, incluindo eletrônicos e componentes tecnológicos.
- Coreia do Sul: aproximadamente $66 bilhões, com destaque para eletrônicos e automóveis.
- Índia: cerca de $46 bilhões, incluindo pedras preciosas, produtos farmacêuticos e têxteis.
Como se observa, a maior parte das importações é da indústria de transformação. Por outro lado, a maior parcela das exportações brasileiras para os Estados Unidos é da indústria de transformação. Mantidas essas tarifas, significará uma oportunidade para o Brasil ampliar suas exportações de manufaturados para os Estados Unidos.
Por outro lado, os Estados Unidos são grande exportador de alimentos:
- México: US$ 30,3 bilhões (17,2% das exportações), com destaque para milho, carne suína, laticínios, soja, carne de aves e carne bovina.
- Canadá: US$ 28,4 bilhões (16,1%), principalmente carne bovina, frutas e vegetais.
- China: US$ 24,7 bilhões (14%), com reduções nas vendas de soja e milho devido à concorrência sul-americana.
- União Europeia: US$ 12,8 bilhões (7,3%), impulsionados por frutas secas e destilados.
Se mantivesse as tarifas contra México e Canadá abriria enorme espaço para o Brasil. Mas Trump voltou atrás porque uma retaliação do México afetaria substancialmente os estados agrícolas, vizinhos do México, fortes redutor de apoio a Trump.
No momento, não consigo buscar dados atualizados diretamente, mas com base em informações anteriores, aqui estão os valores aproximados das exportações de etanol dos EUA para os principais mercados em 2024.
Por outro lado, vários países diretamente afetados pelas novas tarifas são grandes importadores do etanol norte-americano.
- Reino Unido – Aproximadamente 400 milhões de litros.
- União Europeia – Cerca de 600 milhões de litros distribuídos entre vários países.
- Índia – Entre 300 e 400 milhões de litros.
Colômbia – Em torno de 250 milhões de litros.
O Brasil importou 109 milhões de litros no ano passado.
Peça 4 – a estratégia brasileira
O Brasil não ficou na primeira divisão de retaliações. Esse descompasso tarifário, por sua vez, abre bom espaço para os produtos agrícolas brasileiros. Mas uma guerra comercial com os EUA, prejudicaria o desempenho dos manufaturados brasileiros.
Provavelmente a estratégia brasileira no curto prazo será de negociação das tarifas. Mas, desde já, terá que se valer da Apex (Agência de Promoção das Exportações) para realocar suas exportações.
Provavelmente as principais cabeças do comércio exterior deram início a esse reavaliação de cenário.
No acumulado de 12 meses de exportações, até fevereiro, o resultado do comércio com os Estados Unidos ficou assim:
Saldo comercia:l
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)