
A intervenção na empresa foi tocada por escritórios de advocacia que dominam o mercado do Rio de Janeiro – e ligados a magistrados influentes.
O inquérito sobre o golpe das Americanas é uma das maiores fraudes corporativas das últimas décadas.
A intervenção na empresa foi tocada por escritórios de advocacia que dominam o mercado do Rio de Janeiro – e ligados a magistrados influentes.
Era de conhecimento amplo do mercado que os executivos das Americanas não davam um passo sem consultar o sócio Beto Sicupira.
O ponto central do escândalo era o chamado risco sacado. Nessa operação, o vendedor vai ao banco e saca uma quantia correspondente ao dinheiro da venda às Americanas. E ele, obviamente, fica responsável por quitar o financiamento. É como se o banco comprasse os recebíveis da Americanas. Portanto, ela é responsável pela dívida contratada pelo fornecedor.
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O golpe consistiu em inflar essas contas e apresentar contratos falsos para receber a antecipação.
As Americanas não declaram em balanço e, com isso, inflavam os lucros e os dividendos distribuídos.
O argumento central dos principais suspeitos é que a diretoria escondia dos controladores, do Conselho de Administração e das empresas de auditoria as principais informações sobre o golpe. Eles teriam o mesmo grau de informação dos demais acionistas.
Esse álibi foi desmontado muitos anos antes do golpe, especialmente na Teleconferência das Lojas Americanas para reportar os resultados de 2016, com a participação de Murilo Correa, diretor financeiro e de Relações Institucionais das Lojas Americanas e Fabio Abrate, diretor financeiro e de RI da B2W Digital
Como mostrei no artigo “Xadrez das Americanas, o golpe da década sendo desvendado, em uma das assembleias de divulgação do balanço, um analista de mercado observou o descompasso dessa conta. Se um analista percebeu, como iria passar despercebido de três das maiores raposas da história do mercado de capitais brasileiro?
Ontem, foi divulgado que os ex-executivos acusam bancos comerciais de terem escondido do Banco Central as operações de risco sacado. É evidente que não esconderam. Qual a lógica da acusação? Livrar os controladores e comprometer os bancos na operação. Se admitissem que os bancos informaram sobre o risco sacado, cairia o álibi de que a informação foi escondida dos controladores.
O poder de influência da 3G – os controladores – reside nas verbas de publicidade da Ambev, e na influência sobre os tribunais.
Desde 2023, o golpe foi preparado meticulosamente.
Primeiro, houve uma fusão entre as Lojas Americanas e as Americanas S/A. Nessa fusão, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, da 3G, pediram demissão do Conselho de Administração e apenas Beto Sicupira passou a ser “acionistas de referência”).
Como relatei na matéria “Xadrez das evidências do golpe das Americanas”:
“o normal, quando um acionista troca ordinárias por preferenciais, é ganhar algum prêmio pela troca. O 3G foi generoso e abriu mão do ágio.” Sua participação acionária caiu para 29,2% na empresa combinada.
Como relatei na época:
“Ao mesmo tempo, obteve uma liminar, expedida pelo juiz Paulo Estefan, da 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, impedindo qualquer antecipação de pagamentos aos credores e ainda obrigando o BTG a devolver R$ 1,2 bilhão que já havia recuperado.
Estefan já era alvo de uma investigação pela corregedoria do TJRJ, depois que se descobriu que seu filho era sócio da esposa de um de seus administradores judiciais em uma cantina do Rio de Janeiro. O processo foi trancado pelo ministro Antonio Saldanha Palheiro, do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Palheiro é egresso do TJRJ.
Pelo contrato firmado com as Americanas, o foro correto seria São Paulo. O juiz não apenas aceitou o pedido como indicou para a administração judicial o escritório de advocacia Zveiter, de Sérgio Zveiter, irmão do desembargador e ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Luiz Zveiter, de uma família com larga influência nos tribunais fluminenses e, especialmente, na indústria de recuperação judicial do Rio de Janeiro”.
Em meados de 2022, a 3G chamou o executivo Sérgio Rial para assumir o comando da empresa. Rial passou todo o segundo semestre sem assumir. Assumiu no início de 2023 e alegou que só aí percebeu o golpe. Então, pediu demissão e assumiu a defesa dos sócios da 3G.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)