
CHARGE DE NANDO MOTTA ” BLOG BRASIL 247″
Uma contextualização super importante para entender o desenrolar dos acontecimentos, o passo a passo golpista. É isso: a edição quis mostrar a todo o Brasil o passo a passo golpista.
Ao longo da reportagem Jair passou a ser qualificado como “o primeiro ex-presidente a se tornar réu”.
A cobertura da votação no STF teve, ao todo, 31 minutos. Foram 24 minutos no primeiro bloco – um bloco inteiro apenas com o assunto – para destrinchar os votos dos ministros, com total destaque para a argumentação de Alexandre de Moraes. Em detalhes, a reportagem mostrou a resposta do ministro às defesas apresentadas pelos advogados de cada acusado e o voto em si. Na fala de ministro, uma profusão de imagens, com a reprodução do vídeo que foi apresentado em plenário par mostrar a materialidade da denúncia e a violência dos atos, assim como mostrou que Bolsonaro era o líder. A reportagem destacou algumas falas emblemáticas dele, como a alusão a velhinhas que não estavam passeando de bíblia na mão no parque – em resposta à criação de narrativa por parte dos bolsonaristas. Após as várias imagens mostradas no vídeo, a fala de Moraes de que eram atos violentíssimos vinha sempre confirmando o que havia sido descrito e mostrado. Ele também citou a ação das milícias digitais e o uso de fake news para desacreditar as urnas.
Foi uma descrição perfeita da manifestação do ministro Alexandre de Moraes, riquíssima em detalhes.
A cronologia estabelecida foi perfeita – todos os atos descritos eram relacionados às imagens de atos violentos do 8 de janeiro.
Em seguida, as falas dos demais ministros avaliando as denúncias.
Na fala de Dino, espaço importante da reportagem destacando a menção ao golpe militar de 1964 – “Golpe de Estado mata” afirmou o ministro. A reportagem mostrou o link feito pelo ministro entre a ditadura de 1964 e o 8 de janeiro para ilustrar a gravidade dos atos bolsonaristas.
Na sequência, In Fux We Trust deu suas ponderações reforçando a importância de manter a esperança de que o país seguirá vivendo o Estado Democrático de Direito.
Em seguida, o voto de Carmen Lúcia, que manteve dobradinhas com Dino e o próprio relator. O voto dela foi duro: antes de mencionar o golpe recente, fez alusões à ditadura militar, lembrou os torturados e ressaltou que “A ditadura mata” e que “seres humanos de carne e osso” são torturados quando contrariam os poderosos. Ela também disse que alguém planejou e executou. Que o Brasil precisava saber.
Por fim, o voto de Zanin, que também teve um tempo de destaque na argumentação.
O segundo bloco teve pouco mais de sete minutos sobre o tema. Prioritariamente, foi dado à coletiva de Jair Bolsonaro, que criticou a decisão do Supremo, disse que está sendo perseguido e que o julgamento foi pessoal. Nessa parte da reportagem, todas as falas de Bolsonaro eram refutadas pelas falas de Gonet e do próprio Alexandre de Moraes, em passagens muito interessantes. No entanto, apesar da refutação, o espaço dado a Bolsonaro foi muito grande – não havia a necessidade de ressaltar tanto as falas do acusado.
A edição ainda teve Lula no Japão – mas muito de passagem, 15 segundos apenas, para falar do encontro e das perspectivas de negócios.
E muito tempo também para a vergonha da seleção brasileira, que perdeu de 4 x 1 para a Argentina.
Num indicativo de que a vida segue no pós-Bolsonaro.
A reportagem sobre a votação do STF que tornou Bolsonaro réu foi, de fato, muito boa. Com a construção para mostrar a culpabilidade dos envolvidos e a força do STF, sobretudo de Alexandre de Moraes. Mas, há sempre um mas. A edição não esteve totalmente à altura do momento que vivemos. Não foi lacradora e demolidora como as edições de 16 de março de 2016, com a divulgação dos grampos de Dilma, e da prisão de Lula em 5 de abril de 2017. Nem de longe. Foi boa, detalhada, bem construída, com destaques importantes e protagonismo dos ministros do supremo. No entanto, faltou um pouco mais de cor, talvez de emoção. Foi por demais técnica, até na falácia de mostrar os dois lados, dando voz a um golpista que planejava bagunçar toda a ordem democrática.
ELIARA SANTANA ” JORNAL GGN” ( BRASIL)
Eliara Santana é jornalista, doutora em Linguística e Língua Portuguesa, com foco em Análise do Discurso. Ela é pesquisadora do Observatório das Eleições e integra o Núcleo de Estudos Avançados de Linguagens, da Universidade Federal do Rio Grande. Coordena o programa Desinformação & Política. Também Desenvolve pesquisa sobre desinformação, desinfodemia e letramento midiático no Brasil.