
Simone Tebet, demonstrou entender perfeitamente as razões para se ter um Plano de Metas, tal qual implementado por JK.
Na entrevista que me concedeu, a Ministra de Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, demonstrou entender perfeitamente as razões para se ter um Plano de Metas, tal qual implementado por JK. Valia para os anos 50. Vale muito mais agora.
O que se tem de comum entre os dois momentos:
- Mídia atuando contra, mais ferozmente, no caso JK. Nos dois casos, sem o menor interesse em divulgar as ações de governo.
- Dispersão da informação. No caso de JK, a opinião pública sendo regida por jornais, mas também por rádios e pela incipiente TV. Agora, pelos jornais, TVs e redes sociais.
- Atendimento do presidencialismo de coalizão. Ou seja, adaptação das políticas públicas de modo a atender às demandas dos diversos grupos sociais, políticos e econômicos.
JK atendeu ao chamado mercado da época exigindo a participação de capital nacional nas montadoras que se instalavam no país. E atendeu de diversas formas seus aliados. Por exemplo, pessedistas de Poços de Caldas se mandaram para Brasília, para montar fabriquetas de tijolos para sua construção.
A disputa da opinião pública se dá na maneira como se organiza a informação e como se atende às demandas políticas.
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No governo Carvalho Pinto, em São Paulo, o economista Sebastião Advíncula, articulador econômico, ajudou a montar um Plano de Metas. Definidas as obras em todo o Estado, no momento seguinte o articulador político, Plínio de Arruda Sampaio, procurava deputados em todo o Estado e, juntos, definiam as obras que cada um poderia apadrinhar.
No quadro atual, sem a organização da informação em um Plano de Metas, cada entrega ministerial é isolada. O público não a entende como parte de um processo amplo de reconstrução nacional. E parte relevante dessa entrega só será entendida na próxima gestão, quando o projeto maturar.
É emblemático o caso da reconstrução do Rio Grande do Sul. Dia desses entrevistei o responsável técnico pela alocação das verbas federais. Dinheiro para todo canto, para prefeituras, empresários, para a reconstrução de pontes, viadutos, lavoura, indústria, pequenas e grandes empresas.
Indaguei qual a razão para o Rio Grande, em peso, ter votado nos candidatos de oposição, sem reconhecer o trabalho e o republicanismo do governo federal. Disse-me que as obras levam tempo para serem construídas, por isso o reconhecimento só virá nos próximos anos, à medida que forem sendo completadas.
É inacreditável! É evidente que o mérito da entrega será apropriado pelo prefeito ou governador do momento. E o programa foi chefiado por Paulo Pimenta, então Secretário de Comunicação Social do governo Lula.
A organização da informação
Para organizar as informações, tem que haver poucas metas. Como diz Simone Tebet, “cinco metas, que caibam na palma da mão”.
Toda comunicação social deveria consistir em divulgar essas metas. A partir daí, cada entrega iria sendo enquadrada em cada uma das metas propostas, tijolo a tijolo, passando ao público a noção de uma obra maior, um trabalho conjunto de recriação do futuro.
Hoje em dia há três Ministérios trabalhando nesse formato: o do Orçamento e Planejamento, de Tebet, o da Transição Energética, de Fernando Haddad, e a Nova Indústria Brasil, de Geraldo Alckmin.
Os três projetos operam dentro do conceito da integração ministerial, definindo objetivamente cinco metas – ou missões. Para cada meta – ou missão -, cada Ministério chama os demais ministérios envolvidos, mais setores privados e da sociedade civil, para incorporar suas demandas e observações, e enquadrar suas ações nas metas propostas. E tudo isso na surdina, para não despertar reações de Rui Costa.
Tebet, por exemplo, vai entregar até junho seu Plano Brasil 2050. Depois, será exposto no Conselhão para críticas e endosso. No portal do MPO, as informações e metas estão organizadas, incluindo estudos e trabalhos recebidos.
Quem sabe disso?
Além disso, os resultados dessas ações só serão concretizados futuramente. Hoje em dia, os Ministros são praticamente impedidos pelo Ministro-Chefe da Casa Civil, Rui Costa, de qualquer manifestação mais ampla sobre os planos. Qualquer palavra sobre o trabalho interministerial é podada por censuras da Casa Civil, por supostamente invadirem a área de outro Ministério.
Por outro lado, a própria Casa Civil tenta assumir a coordenação de planos – como o programa de ciência e tecnologia da 5a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação – sem dispor de conhecimento e relacionamentos além da Bahia.
Por seu lado, sem disposição para se meter no dia-a-dia, Lula fechou-se em copas e entregou a estratégia política a Rui Costa e ao Ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira. Ambos garantem a cooptação de grandes grupos econômicos, no caso de Silveira, com ações imprudentes. E atuam em dois estados-chave para as próximas eleições: Minas Gerais e Bahia. O técnico Lula-Dorival colocou o goleiro como armador. E, nessa toada, as avaliações sobre o governo despencam.
Em cima do que já existe, fica evidente qual a política de comunicação a ser adotada:
- Unificação dos programas já existentes, criando uma junta composta pelos 3 Ministros – Tebet, Haddad e Alckmin – reportando-se diretamente a Lula.
- Definição de uma marca forte, tal qual JK, nos seus “cinquenta anos em cinco”. O novo Secretário de Comunicação, Sidônio Palmeira, é craque nesse desafio.
- O próprio Lula assumindo o comando da junta e sendo o maior divulgador do seu Plano de Metas.
- Soltar as rédeas que prendem os três ministros, para que possam ampliar o alcance dos planos e informar adequadamente os influenciadores.
Tem que correr, porque virando a esquina há um bicho-papão pronto a devorar a democracia brasileira a partir das eleições de 2026.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)