
Fatos supervenientes podem mudar o quadro atual, que parece ter resiliência.
Nesse caso, os fatos supervenientes aludidos não significam a definição do dicionário, de fatos subsequentes apenas, tratam de eventos inesperados e surpreendentes, que deverão acontecer ainda, em eleições tão complexas como as de 2022.
Lula, Moro e Bolsonaro, que lideram as pesquisas, formam um conjunto entrópico. Debates entre eles, se Bolsonaro não se recolher, serão bastante radioativos por conta do que cada um tem a contar do outro. Antes disso, os debates efetuados através da mídia, que irão esquentar a partir de abril de 202, podem levar a deslizes.
Eventos que podem surpreender: as alianças partidárias, a formação da chapa e frases infelizes dos candidatos, que podem alcançar o voto disposto à mudança.
As alianças estaduais também podem causar alterações nas pesquisas, mesmo que de poucos pontos.
No caso de Moro, se ele subir para 15%% até maio, irá provocar combustão. Se vai suplantar Bolsonaro no primeiro turno, e Lula no segundo, são fatos futuros, a depender da própria dinâmica da suposta ascensão de Moro.
O grande problema que ocorre agora, é que as pessoas estão emitindo opiniões conforme seus desejos, baseadas em faces favoráveis de uma pirâmide de observações, sem olhar o todo, olhar todas as faces, onde se encaixam esses possíveis fatos supervenientes.
Entra em pauta o que Keynes falou do concurso de miss. Não adianta você vaticinar sobre a vencedora, vinculado a quem você acha a mais bonita, vai ganhar quem agradar mais o conjunto dos jurados, Que no caso é o eleitorado. Não interessam os gostos pessoais, os ódios, as rejeições, as paixões. Importante é o todo. O todo é um caleidoscópio
E o todo é complicado para ser escrutinado agora. Temos 50% da população despolitizada. Vinte por cento lutam diariamente pela sobrevivência, por comida e condições mínimas de vida, não consegue, infelizmente, poder realizar desde logo um juízo crítico que julguemos definitivo. É o país que temos, uma desigualdade absurda e vexaminosa para nós brasileiros.
Trinta por cento estão um tanto acima da extrema pobreza, mas também lutam denodadamente por uma vida digna, têm pouco acesso a uma formação que construa os graus de criticidade necessários, e pode mudar de voto de acordo com fatos simbólicos, que têm o efeito que Jung exaltou.
Ou seja, construímos um país desigual, uma usina de privilégios, e os privilegiados mais ricos supõem que todos estão nas mesmas condições de fixar um voto agora. Não estão.
A nossa fragilidade social nos impõe uma incerteza permanente, que deveríamos combater, mas não o fazemos de modo eficaz. E mesmo países que ofertam um padrão de vida maior para seus habitantes, correm risco de mudanças bruscas em processos eleitorais atípicos, como o que vamos enfrentar. Um incidente fez Erundina ganhar uma eleição em SP.
O imediatismo brasileiro, a nos perseguir, desejando a cada dia, que projetemos o futuro, adicionado a esse momento onde as pessoas colocam suas crenças à frente da realidade, enxergando o que querem ver, não o que pode se passar, nos arremessa a conclusões precipitadas.
Há muito a se suceder, a única coisa certa é que pelo momento político atual e pelos candidatos que lideram as pesquisas, entrópicos como já mencionado, a sucessão de fatos não será tediosa, nem dentro da normalidade de quando tínhamos PSDB x PT disputando as eleições desde 1994 até 2014.
As novidades serão a nova normalidade. Apertem os cintos, e como diz a letra da canção:
Faz de conta que ainda é cedo, tudo vai ficar por conta da emoção.
JOSÉ LUIS PORTELA ” SITE DO UOL” ( BRASIL)
