Nas próximas semanas aumentarão as caravanas em direção ao gabinete de Hamilton Mourão e começarão a pulular as análises sobre o que seria um futuro governo com ele na presidência.

Peça 1 – a fragilidade das instituições
No embate com as instituições, Jair Bolsonaro não logrou o golpe do Estado devido à sua própria mediocridade. As instituições se mostraram inertes em todo seu período de governo, fechando os olhos para todos os crimes cometidos e todas as ameaças proferidas, inclusive as ameaças virtuais, além das notórias ligações com o escritório do crime.
As investigações sobre crimes cometidos, inclusive o assassinato de Marielle, foram para segundo plano, com procuradores, juízes e Procurador Geral da República jogando com o fator tempo – empurrando com a barriga investigações centrais, até se chegar a um momento favorável, e sujeitando o país a ser governado por um presidente suspeito de envolvimento em crimes de sangue e completamente insensível a temas humanos, como as consequências de suas atitudes sobre a mortalidade da doença.
Bolsonaro está se esvaziando por sua própria incompetência e incapacidade de qualquer articulação política inteligente, não pela prontidão das instituições.
Peça 2 – a não-governabilidade de Bolsonaro
A não ser para os seguidores fanáticos, há consenso sobre os riscos de manter Bolsonaro no comando do país. Há riscos sanitários, diplomáticos, econômicos, riscos físicos, com a atuação de suas milícias virtuais e reais, riscos educacionais e nas políticas tecnológicas, riscos para o agronegócio e transformação do Brasil em um pária no chamado concerto das nações.
Bolsonaro sustenta-se em duas pernas frágeis: no Parlamento, o centrão; no Judiciário, o Procurador Geral da República. Não são parceiros de sangue, mas aliados eventuais. Ficarão com Bolsonaro até o momento em que a tese do impeachment se imponha na opinião pública.Leia também: Telecatch 2.0: democracia CPFs x feudalismo CNPJs, por Fábio de Oliveira Ribeiro
Nas próximas semanas, o clima do impeachment será acirrado com as investigações sobre as denúncias de Sérgio Moro. Esses momentos de catarse costumam ser potencializados com a imprensa escarafunchando testemunhas, levantando investigações em andamento. Está em andamento um daqueles momentos típicos da mídia, que antecedem a erupção de um vulcão.
Há dois elementos centrais jogando gasolina na fogueira política. O primeiro é o vídeo da reunião na qual Bolsonaro pediu a mudança na Polícia Federal do Rio de Janeiro, para proteger sua família. O segundo foi o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), nas mãos de Ricardo Lewandowski, da obrigatoriedade de Bolsonaro mostrar seu atestado de saúde.
Não coincidentemente, Bolsonaro passou a aparecer em público com uma máscara protetora. Fica evidente que deverá apresentar um exame mais recente, atestando positivo em coronavirus, e alegando que, a partir desse conhecimento, começou a se cercar de cuidados, para não contaminar terceiros. No início da noite, a Advocacia Geral da União (AGU) entregou o exame ao STF.
À noite, a AGU divulgou a informação de que o teste deu negativo. Não bate! Há que se fazer uma perícia. Qual a razão para o jogo de cena de Bolsonaro, para afirmações de que o exame poderia provocar impeachment, se desse, de fato, negativo?
Não irá colar.
Ao sinal da primeira lava escorrendo, centrão e o PGR pularão fora. E o momento está próximo.
Peça 3 – o fator Hamilton Mourão
O fator que emperra o processo de impeachment é o enigma Hamilton Mourão, o vice-presidente.
Nos últimos meses, Mourão se destacou pela discrição e pela racionalidade. Ao contrário dos demais generais do Palácio, ele não é demissível, permitindo maior desenvoltura. Depois de um início um tanto espalhafatoso, recolheu-se . Mas, em momentos relevantes, aparecia sempre com posições de bom senso, defendendo o diálogo, a tolerância, entendendo a relevância das opiniões divergentes na democracia, tentando remendar as relações com a China, endossando as medidas do Ministério da Saúde contra o Covid-19.Leia também: Bolsonaro disse que exame de Covid-19 poderia levá-lo a impeachment, diz jornal
Mas há o Mourão pré-vice-presidência, radical, carbonário.
Seus colegas de farda, militares da reserva que o acompanhavam antes das eleições, sustentam que ele mudou radicalmente. Conversei com fontes ligadas a esse grupo, que se juntou em torno do Partido Republicano Brasileiro, que abrigou a candidatura de Mourão. Segundo eles, teria se tornado um democrata, convencido da relevância das negociações, do pluralismo democrático.
Mourão é um estudioso dos clássicos. E o primeiro dos clássicos é “A Arte da Guerra”, de Sun Tsu. O ensinamento oitavo diz:
Toda guerra é baseada em dissimulação. Por isso, quando capaz, finja ser incapaz; quando pronto, finja grande desespero; quando perto, finja estar longe; quando longe, faça acreditar que está próximo.
Quem é o verdadeiro Mourão? Só se saberá com a chamada prova do pudim, depois que Mourão assumir e se mostrar.
Peça 4 – o avanço do militarismo
Há uma dinâmica corporativa por trás da ocupação de espaço civil pelos militares. A história comprova. Castello Branco assumiu a presidência em 1964 prometendo eleições presidenciais para dali a dois anos. Abriu espaço para o poder militar. No final do seu governo, o Ministro do Exército, Costa e Silva, não admitiu a devolução do poder aos civis. E, com a Junta Militar, inaugurou-se o mais sangrento regime brasileiro, superando até a violência do Estado Novo.
A abertura para o poder militar teve início com o governo Temer, com a entrega do Ministério de Defesa a um militar, a convocação do general Sérgio Etchgoyen para o Gabinete de Segurança Institucional e, no abuso final, o GLO (Garantia de Lei r Ordem) no Rio de Janeiro, transformando-a ilegalmente em uma intervenção militar. Não houve nenhuma reação da Procuradora Geral da República Raquel Dodge.Leia também: Site ligado a Moro agora acusa Bolsonaro de usar Abin para acessar dados contra Witzel
Com Bolsonaro, de cara militares assumiram 7 mil cargos na máquina pública. Gradativamente foram assumindo novas posições, culminando com o controle das operações do Ministério da Saúde na batalha contra o coronavirus.
Agora, entra-se em uma fase crítica, na qual há grande possibilidade de Mourão assumir a presidência. E aí, a Peça 1, a anomia das instituiçoes, passa a ser relevante.
Dois pontos provocam resistências a essa saída.
O primeiro, o risco da militarização definitiva, com o governo sendo conduzido por um militar racional e estrategista – e não um sub-oficial estabanado com mais vinculações com as milícias do que com as Forças armadas.
O segundo, a resistência de Mourão em negociar com grupos políticos. Ele tem resistido aos apelos de seus aliados militares, afirmando que não pretende assumir a presidência com amarras.
De qualquer modo,
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)