O ESPLENDOR IBÉRICO DE SALÔNICA

Formado nas redações dos jornais ainda muito jovem, conforme costume à época, passei, em São Paulo, pela Folha da Tarde, do Grupo Folhas, e A Gazeta, da Fundação Cásper Líbero, transferindo-me, em seguida, para o Rio de Janeiro, onde trabalhei na revista Manchete, da Bloch Editora, e prossegui carreira em O Globo – que me enviou como correspondente na Península  Ibérica, sediado em Madri.

Seria deslocado, posteriormente, para Roma, com a responsabilidade de cobrir, além de Espanha e Portugal, a Itália e a Santa Sé, assim como os países do Leste europeu e do Oriente Médio. Só começaria a trajetória televisiva em 1985, na Telemontecarlo, comprada no ano anterior pela Rede Globo, na qual dirigi, inicialmente, a grade de programas semanais do horário nobre, de segunda-feira à sexta-feira, antes de ser Caporedattore, quer dizer, Redator-Chefe, dos telejornais diários.

Fui influenciado por dois mestres globais: a legendária Diretora Executiva Alice Maria, no Rio de Janeiro, e, em Roma, o Diretor-Geral da emissora monegasca, Ricardo Pereira, meu amigo, que havia sido um brilhante correspondente em Londres da Vênus Platinada. Mas, indiscutivelmente, minha principal escola, no petit écran, seria o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), ao ser contratado, em 1988, pelo Diretor de Jornalismo, o mineiro Marcos Wilson, como seu Diretor Executivo, quando tive o privilégio de observar de perto o genial Sílvio Santos, nome artístico do judeu sefardita Senor Abravanel, ou seja, Señor Abravanel, que completou 89 anos no último dia 12 de dezembro.

É descendente de uma família de notáveis portugueses e espanhóis da Idade Média, entre os quais, o filósofo, estadista e banqueiro Isaac Abravanel, nascido em Lisboa, em 1437, e morto, aos 71 anos, no exílio, no Ghetto de Veneza – cujo portrait a óleo ilustra a coluna. Ele é celebrado universalmente, até hoje, como um dos grandes Doutores da Torá Judaica – inspiradora do Velho Testamento.

Os ancestrais de Sílvio Santos saíram, definitivamente, de Portugal, em 1496, quando a imensa comunidade judaica foi expulsa do Império da Casa de Avis, que abrangia, não somente a Europa e os arquipélagos insulares, mas, também, as Áfricas e Ásia – o Brasil viria a ser descoberto, oficialmente, quatro anos mais tarde. Refugiaram-se, em sua maioria, em ‘outra’ Lisboa, a deslumbrante cidade helênica de Salônica, igualmente à beira-mar plantada, à margem Oriental do Mediterrâneo, já controlada, àquele tempo, pelos sultões do Império Turco-Otomano.

Magistralmente debruçada sobre o Mare Nostrum, como a italiana Nápoles, a egípcia Alexandria e a libanesa Beirute, a mediterraníssima Salônica acolheu nas primeiras décadas da Idade Moderna (1453 – 1789) multidões de sefarditas que conseguiram escapar, praticamente com a roupa do corpo, dos malditos pogrons realizados pela chusma ibérica. E, para cúmulo dos absurdos, ‘tolerados’ pelos soberanos de Lisboa e de Sevilha.

A queda, no final da Idade Média, de Constantinopla, metrópole do Cristianismo Ortodoxo, e, por isso, rebatizada para Istambul pelos maometanos, bem como a chegada, logo a seguir, de cerca de 60 mil judeus portugueses e espanhóis, transformariam Salônica num dos portos mais ricos e cosmopolitas do Velho Mundo. Pulsava, ali, o coração dos novos negócios das especiarias, impulsionados pelos banqueiros da diáspora, porém, sob as rédeas do Grão-Vizir da Sublime Porta – os governantes dos sultões da dinastia Otomana, sucessores dos antigos califados islamitas dos Omíade, de Damasco, Abássida, de Bagdá, e Fatímida, do Cairo.

Foi no apogeu do sultanato istambuliota que Salônica passou a ser chamada de Sefarad do Oriente, isto é, a Península Ibérica Oriental. Após a Guerra dos Bálcãs, em 1912, a Grécia arrebatou Salônica dos turcos e os sefarditas tiveram suas liberdades reduzidas pelos monarcas cristãos ortodoxos de Atenas, que não confiavam nos outrora parceiros de Istambul. Os judeus tentaram, sem êxito, uma autonomia administrativa, como no período otomano, quando também era denominada ‘Nova Israel’ – o milenar Reino na Terra Santa, consolidado ao redor do Templo de Jerusalém, havia sido destroçado, no ano 70 de nossa Era comum, por determinação do romano Imperador Tito.

Desde que se tornaram vassalos dos atenienses, os judeus começaram a abandonar a Sefarad do Oriente, dentre eles, os Abravanel. Dos 130 mil que residiam na cidade, mais da metade partiu. Quase todos os 56 mil que decidiram ficar, morreriam na Segunda Guerra (1940 – 1945), nos famigerados campos de extermínio da Alemanha hitlerista. Sobreviveram ao conflito apenas dois mil. Melhor sorte tiveram os Abravanel. Vieram para o Brasil e, assim, o extraordinário apresentador Sílvio Santos, que se considera um carioca da gema, pôde nascer, segundo atestam seus registros, no boêmio bairro da Lapa, no centro do Rio de Janeiro, e não, como suspeitou-se por anos, em Salônica.

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador


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