
Sem dúvida, 1968, o ano que nunca acabou, conforme um dos mais cariocas dos jornalistas, Zuenir Ventura, nascido em Minas Gerais, foi o divisor de águas da História do pós-Segunda Guerra (1940 – 1945).
Marcado pela rebeldia dos jovens de cabelos longos, como os meus, à época, que transformaria as liberdades em valor universal em quase todo o planeta, principalmente, na Europa e nas Américas. Foi, na verdade, muitíssimo corrido. Sobretudo para mim, que completaria 19 anos em maio.
Comecei 1968, ainda estudante, como um dos ‘meninos’ do aguerrido vespertino do Grupo Folhas, a Folha da Tarde, cujo chefe de reportagem era o mineiro Carlos Alberto Christo, o Frei Beto, da Ordem dos Dominicanos. Transferi-me em agosto, em pleno quebra-quebra das passeatas, para outro irrequieto vespertino da capital paulista aliado das esquerdas, A Gazeta, da Fundação Cásper Líbero.
O jornal era dirigido pelo talentoso pernambucano Múcio Borges da Fonseca e, na redação, conviviam, sem grandes conflitos ideológicos, o futuro Presidente do Partido dos Trabalhadores, o também mineiro Rui Falcão, Editor de Esportes, e o ‘guru’ do Presidente Jair Bolsonaro, o campineiro Olavo de Carvalho, atuando como copydesk na Editoria Geral. Ambos tinham sido militantes do Partidão, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), e saíram na ‘dissidência’ de 1966, atraídos pelo projeto revolucionário do baiano Carlos Marighella, que, igualmente, levaria à luta armada o Frei Beto.
Existia ainda no Grupo do Estadão um arejadíssimo vespertino, porém, politicamente, mais conservador, o Jornal da Tarde, criado pelo genovês Mino Carta – idealizador das revistas Veja, Istoé e Carta Capital.
Os três vespertinos, que, infelizmente, já deixaram de circular, ganharam nos últimos tempos, por coincidência, livros sobre suas respectivas trajetórias.
O primeiro foi a edição de “Os Meninos da Folha da Tarde”, em 2011, com um capítulo de minha autoria apresentando aqueles ‘anos de chumbo’. Foi coordenado por dois bravíssimos jornalistas, Edgard Soares e Miguel Arcanjo Terra, meus queridos colegas da heroica FT, que se tornariam, posteriormente, publicitários de sucesso.
Os outros dois foram publicados em 2019: “Jornal da Tarde – Uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira”, de Ferdinando Casagrande, que, como eu, passou pela Gazeta Mercantil, e “Cásper Líbero – Jornalista que fez escola” (foto da capa ilustra a coluna), do caríssimo amigo Dácio Nitrini, contemporâneo meu na direção do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), por quase uma década, a partir de 1988, nos gloriosos anos do Jornalismo na emissora – merecendo esmerado lançamento da Editora Terceiro Nome de Mary Lou Paris.
A obra impressiona. Não é uma simples biografia. Muito pelo contrário. Coloca o leitor no centro de um período que vai do início do século XX até a morte de Cásper Líbero, aos 54 anos, num desastre aéreo, em 1943, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, na chegada ao Aeroporto Santos Dumont.
Nitrini foi hábil na reconstituição da personalidade complexa e peculiar de Cásper Líbero, entretanto, vai além do jogo das ‘intriguinhas’ das redações e projeta luz sobre os momentos de paixões vividas no começo da Era Getúlio Vargas em São Paulo – abrindo espaço para diversos personagens. Mostra também como os liberais paulistas, entrincheirados no Estadão da família Mesquita, enxergavam nas atitudes de Cásper Líbero costumes ‘arrivistas’ – fundamentalmente quando abandona as hostes constitucionalistas de 1932 e, beneficiado por favores financeiros do Palácio do Catete, faz de A Gazeta porta-voz do ‘Estado Novo’ getulista.
É um texto primoroso, independente, que chama a atenção pela exaustiva pesquisa do autor e de Camila Sampaio. Está longe de ser uma biografia oficial. Pude devorá-la, juntamente com minha esposa, Dona Andrea, durante nossas férias de final de ano entre a antiga São José Del-Rei, atual Tiradentes, e São João Del-Rei, na esplêndida Estrada Real, aberta pelos Bandeirantes, no século XVII, pontilhada por preciosas igrejas em estilo Barroco e seus valiosos objetos de arte sacra – de Diamantina à fluminense Paraty.
Emerge do admirável trabalho de Nitrini um Cásper Líbero, natural de Bragança Paulista, numa família de sobrenomes lusitanos, que, de fato, como diz o título, fez escola, ao registrar em seu testamento o desejo do estabelecimento da primeira faculdade de jornalismo no Brasil.
Tive o privilégio de ter sido um de seus ‘alunos’ – em 1968, em A Gazeta, e, aos 52, quando assumi a direção, em 2002, do Jornalismo da TV Gazeta. Por quatro anos recebi na redação inúmeros estagiários provenientes da Escola de Comunicação sonhada pelo próprio Cásper Líbero e pude comprovar a relevância de seu legado.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino de Castro é jornalista e historiador