A IMBATÍVEL FORTALEZA DOS REIS MAGOS

Durante os 60 anos em que Portugal esteve sob a Coroa de Madri (1580 – 1640), duas das capitais do Nordeste brasileiro seriam fundadas pela dinastia dos vienenses Habsburgo – então soberanos de Espanha, bem como das Américas e do vastíssimo Império herdado de Lisboa nas Áfricas e na Ásia, para além dos Países Baixos, agrupando o Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo), e a própria Áustria.

A primeira foi a Cidade Real da Filipeia de Nossa Senhora das Neves, em 1585, atual João Pessoa, capital da Paraíba, pelo Rei Felipe II (1527 – 1598), O Prudente, que, em Portugal, teve o título de Felipe I. A segunda, Natal, capital do Rio Grande do Norte, consolidada e criada em 1599, no ano seguinte à construção da Fortaleza dos Reis Magos, para defender a região das frequentes invasões francesas, semelhantes às que deram origem à colônia França Antártica (1555 – 1570), na Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro.

O baluarte potiguar foi inaugurado em 6 de janeiro, Dia dos Reis Magos, e, por isso, foi assim batizado – sendo bastante parecido com outras cidadelas lusitanas erguidas nos séculos XV e XVI na costa Ocidental africana, entre as quais, a de Mazagão, no Marrocos, e a de São Jorge da Mina, próxima a Acra, capital de Gana. Natal ganharia notoriedade em todo o planeta por ter sido o ponto escolhido para a cimeira, ou seja, a reunião de cúpula dos presidentes do Brasil, o gaúcho Getúlio Vargas (1882 – 1954), nascido em São Borja, na fronteira com a Argentina, numa família açoriana, e o dos Estados Unidos, o nova-iorquino Franklin Delano Roosevelt (1882 – 1945), de ascendência holandesa.

O encontro ocorreu em 28 de janeiro de 1943 e selaria, oficialmente, a ingresso do Brasil na Segunda Guerra (1940 – 1945), ao lado dos aliados – Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética e as forças rebeldes da Résistance Française, lideradas de Londres pelo General Charles de Gaulle (1890 – 1970).

Vargas permitiu que as aeronaves militares americanas, deslocando-se das bases do Sul dos Estados Unidos, fizessem escala em Natal, no extremo oriental do País, onde eram reabastecidas, para, em seguida, cruzarem o Atlântico, rumo ao Norte da África, tentando conter a ofensiva da Alemanha comandada pela Raposa do Deserto, General Erwin Rommel (1891 – 1944), prestes a conquistar o Egito e, consequentemente, o Canal de Suez – em poder dos ingleses do Primeiro Ministro Winston Churchill (1874 – 1965).

O Presidente brasileiro comprometeu-se também em despachar tropas, posteriormente, para ajudar os aliados na Itália contra o nazi-fascismo – o que aconteceria em 1944, com a chegada dos ‘pracinhas’ da Força Expedicionária Brasileira (FEB) ao front da Linha Gótica, na Região da Toscana. Mas poucos são os turistas que viajam ao Rio Grande do Norte e se interessam, ademais de suas paradisíacas praias, pelo célebre summit de Vargas e Roosevelt. Visitam, sim, a imponente Fortaleza dos Reis Magos, na margem direita da barra do Rio Potengi, uma fortificação, com planta do jesuíta espanhol Gaspar de Samperes, que os holandeses, durante a ocupação do Nordeste brasileiro (de 1630 a 1654), a qualificavam como a mais inexpugnável de todas as Américas, conforme definição do ‘espião e comerciante’ neerlandês Adriaen Verdonck, residente em Olinda, quando do ataque de seus compatriotas.

Ele era natural da região de Brabante, entre a Bélgica e a Holanda, e morreria, em 1631, em Recife. Concordam completamente com a avaliação de Verdonck dois notórios estudiosos daquele período, os jornalistas e pesquisadores, ambos potiguares, Luís da Câmara Cascudo (1898 – 1986), nas crônicas que compõem sua “História da Cidade de Natal”, publicado em 1947, e “Os Holandeses no Rio Grande do Norte”, de 1949, e Hélio Galvão (1916 – 1981), no trabalho de fôlego intitulado “História da Fortaleza da Barra do Rio Grande”, lançado em 1979, merecendo em 2015, uma edição compacta em português e inglês.

Tive o privilégio de conhecer a Fortaleza dos Reis Magos no dia 24 de setembro último, como mostra a foto que ilustra a coluna, com a minha esposa, Dona Andrea. O acesso à cidadela é feito por uma passarela sobre a praia, e dentro de suas intransponíveis muralhas de pedras, está custodiado um valioso Padrão Português, datado de 1501, à época dos Descobrimentos dos Mestres de Avis. O monumento é denominado, no Nordeste, Marco Colonial de Touros – referente à localidade na costa do Estado, distante 84 quilômetros de Natal, onde foi fincado inicialmente. Muito antes, portanto, dos Felipes de Espanha – e que foram também de Portugal.

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *