
Provérbio atribuído aos povos de língua árabe, porém, escrito pela primeira vez no idioma indiano sânscrito, ensina-nos que os inimigos de nossos inimigos seriam, consequentemente, nossos amigos. O velho conceito parece bastante verosímil para explicar o ‘acerto de contas’ que marca o novo conflito no Oriente Médio, principiado há duas semanas, com a invasão do exército da Turquia ao Nordeste da Síria, região habitada majoritariamente pelos curdos, muçulmanos sunitas, como os turcos, e opositores do regime de Damasco, do muçulmano alauita Bashar Assad, de 54 anos.
Os turcos tentam ocupar aqueles territórios, após a saída das tropas dos Estados Unidos, pois pretenderiam instalar na área cerca de um milhão de refugiados da guerra civil da própria Síria, contrários ao domínio de Assad, vitorioso na disputa – com substancial ajuda da Rússia, de Vladimir Putin, de 67 anos, e dos aiatolás fundamentalistas xiitas do Irã.
A manobra de Ancara, por sua vez, contaria com o respaldo de Washington. Milhares e milhares de prófugos, quase todos muçulmanos sunitas, estão confinados na fronteira da Turquia próxima a Aleppo, segunda cidade da Síria, bem como em três países vizinhos, Iraque, Jordânia e, sobretudo Líbano, onde estão um milhão deles. Espalharam-se também por toda a Europa, Estados Unidos e chegaram, inclusive, ao Brasil.
A incursão dos turcos, ordenada pelo governo islâmico do istambuliota Recep Tayyip Erdogan, de 65 anos, desencadeou a reação imediata de Damasco, que contra-atacou, com a cobertura da aviação e da artilharia de Moscou, retomando, depois de oito anos, o controle da região – sendo apoiado pelos ‘inimigos’ curdos, antigos protegidos, até setembro último, do Presidente republicano Donald Trump, de 73 anos.
O confronto atual traz de volta ao cenário do Oriente Próximo os odores da ‘Guerra Fria’, dominante no panorama global desde o final da Segunda Guerra (1940 – 1945) à derrubada, em novembro de 1989, do Muro de Berlim. Novamente são protagonistas Washington e Moscou. A ‘Guerra Fria’ dividia o mundo basicamente em dois blocos: os pró-americanos e os pró-soviéticos. Embora tivesse surgido, em 1961, o Movimento dos Não Alinhados foi sempre, e é até hoje, uma espécie de ‘correia de transmissão’ do Kremlin, reunindo na sua fundação, entre outros países, a antiga Iugoslávia, do Marechal Josip Broz Tito (1892 – 1980), a Índia, de Jawaharlal Nehru (1889 – 1964), e o Egito, de Gamal Abdel Nasser (1918 – 1970).
Está na presidência dos Não Alinhados, neste mandato, o venezuelano Nicolás Maduro, de 56 anos. Os pró-americanos tinham como referência a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), estabelecida em 1948 pelos Estados Unidos, agrupando, desde seus primórdios, Portugal e a então ‘moderna’ Turquia, dos oficiais militares chamados de ‘jovens turcos’. O outro bloco respondia ao Pacto de Varsóvia, instituído em 1955, sob o comando de Moscou, atuando, fundamentalmente, dentro do mapa da Europa Oriental, entretanto, com longos braços estendidos em vários pontos das Áfricas e Ásia. Mas a ‘joia da coroa’ do ultramar comunista era, sem dúvida, Cuba, a ensolarada ilha caribenha diante do Estado americano da Flórida, e sob controle da família de origem espanhola galega dos Castro.
O plano do Presidente Erdogan esbarrou, inicialmente, nos curdos – grupo étnico reverenciado no universo maometano, apesar de nunca ter constituído um Estado independente. São herdeiros do legendário personagem da Idade Média, Saladino (1138 – 1193), nascido na cidade iraquiana de Tikrit, vencedor dos Cruzados, em 1187, reconquistando para o Islã a sagrada Jerusalém.
Os curdos, ao invés das populações dos países da Liga Árabe, não são semitas, aliás, como os turcos, e há séculos vivem nas montanhas fronteiriças da Turquia, Síria, Iraque e Irã. Concentram-se especialmente no território turco, onde residem 16 milhões do total de 30 milhões de curdos. Saladino tinha profundos laços com a milenar Damasco, na qual morou até a morte. Foi sultão, simultaneamente, do Egito e da Grande Síria, que incluía, à época, toda a Terra Santa, compreendendo Israel, Cisjordânia, parte Jordânia, Faixa de Gaza e Líbano.
O egípcio Nasser sonhou em reconstruir o sultanato de Saladino, criando em 1958 a República Árabe Unida (RAU), ao fundir o Egito com a Síria – todavia não conseguiu convencer o Líbano, de maioria cristã. A RAU seria dissolvida em 1961 quando a Síria se rebelou, ao constatar que sua capital já não era, de fato, Damasco, mas, sim, o Cairo. O fracasso da RAU abriria caminho para a ascensão ao poder, em 1971, do pai de Bashar, o nacionalista Hafez Assad (1930- 2000), cujo regime familiar dura 48 anos. O Egito nasserista e a Síria estiveram sempre, durante a Guerra Fria, debaixo do guarda-chuva escarlate da União Soviética.
O curioso é que também Damasco considerava os curdos inimigos, porque estes reivindicam territórios da Síria – assim como da Turquia e do Iraque. Os curdos, conforme o provérbio, se tornaram inimigos dos turcos, inimigos dos sírios, logo, os descendentes de Saladino passaram a ser vistos por Damasco, no momento, como amigos.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino de Castro é jornalista e historiador